Juliana já perdeu as contas de quantas vezes escutou essa pergunta. Sim, ela enfrentou sozinha 30 horas de avião até o outro lado do mundo e passou 14 dias em um país com uma cultura e um idioma nada parecido com o nosso. “A China é altamente singular, é diferente de que tudo que tinha visto e vivido. Lá ninguém fala inglês e ninguém é ninguém mesmo. A comunicação é extremamente difícil. Era como se tivesse presa somente aos meus próprios pensamentos e incapacitada de me comunicar com o mundo”. 

Essa não foi a primeira viagem solo de Juliana. Há anos ela vem desbravando destinos nacionais e internacionais, com ou sem companhia. Se a oportunidade surge, ela não deixa escapar. Seja como for. Seu objetivo é um só: “viver a vida de verdade” do local. “Em geral, não sou daquelas que fazem 15 destinos em 10 dias. Tento ficar entre 5 e 6 dias em cada lugar, no mínimo. Com isso, consigo fazer uma das coisas que mais gosto: parar e só observar”.

Na China não foi diferente. Juliana passou alguns dias em Beijing, mas a sua base principal foi Datong, cidade ao norte, quase na Mongólia. É claro que ela se preparou para essa aventura: baixou, por exemplo, inúmeros aplicativos de tradução, além de outras mil funcionalidades. “Quando se viaja sozinha, é preciso uma atenção especial à comunicação e à localização. Por isso, costumo, inclusive, estudar os principais trajetos que farei na cidade para ter mais segurança. Como na China isso não é possível, porque o Google é proibido, imprimi todos os mapas que tinha online. Também escrevi no papel várias frases importantes em mandarim e as carregava na minha mochila”. Entre as palavras escolhidas estavam “metrô”, “água”, “socorro” e “coca zero”.

Juliana conta que, como na vida, o inesperado se faz presente. “As viagens sempre saem melhor que o planejado, mas com um ou dois tons a mais de emoção”. Foi isso que aconteceu, por exemplo, quando descobriu que o hotel de Datong não aceitava cartões de crédito. “Aliás, não só no meu hotel, mas em toda China é bem difícil um estabelecimento que aceite cartões das bandeiras internacionais. Aprendi isso na marra”.

Com ajuda do aplicativo, pediu ajuda a um funcionário e, munida de mapa e celular, foi à luta. “A China como um todo, não só Datong, é um grande canteiro de obras. Eles derrubam vilas inteiras e constroem apartamentos com “cara” ocidental, além de pontes e túneis. Naquela manhã, eu andei, andei, andei e ninguém me entendia nem sabia me indicar nada. Em especial no interior, as pessoas não sabem ler e, assim, tudo se torna ainda mais difícil”.

Juliana percorreu cerca de 14 km. “Meu nível de estresse já estava muito alto e eu já queria pegar o primeiro avião para o Brasil quando finalmente encontrei o banco”. Como a inteligência emocional já tinha ficado para trás, ela entrou no banco gritando e um silêncio absoluto tomou conta do lugar. “Todos olhavam para mim como se eu estivesse nua na frente deles. Até que a vice-presidente do banco apareceu e disse, gentilmente, em um inglês péssimo, ‘no-change-money’. Não tive dúvida: saquei as minhas notas e entrei num looping eterno de ‘I need to change my money’. Lembra-se da cena da Scarlett O’Hara dizendo (com as cenouras na mão) que não sentiria mais fome? Pois bem, era eu gritando com força e emoção que precisava trocar as moedas. Fiz até mimica com uma nota de dólar e outra de yan”.

Esse foi, segundo Juliana, o pior e o melhor (!!!) momento da viagem. “Foi quando me apaixonei por aquele povo que é superamável. A vice-presidente do banco pagou um taxista para me levar à agência certa onde poderia trocar a moeda. Depois desta demonstração de empatia, tive milhões de outras daquele povo”.

Sempre que se perdia, aparecia alguém para levá-la até o ponto turístico, colocá-la no ônibus correto ou carregá-la até um restaurante com comida ocidental. Juliana brinca que se sentiu uma jet-setter em vários momentos. “É engraçadíssimo, pois as pessoas te param e pedem para tirar fotos. Em Datong, eu comia sempre num mesmo restaurante e, no estabelecimento ao lado, os funcionários corriam para a janela e sorriam ao me ver passar. As moças do restaurante me traziam colher e sal, sem nem pedir. Enfim, voltei apaixonada”.

Para ela, outro ponto alto e significativo da viagem foi conhecer a Praça da Paz Celestial, em Beijing. “Lembro-me como se fosse hoje das imagens daquele jovem chinês parando um tanque, na década de 80. Eu era pequena, mas lembro nitidamente que foi a primeira vez eu senti vontade de fazer algo da minha vida. Queria estar naquele lugar contando aquela história, por isso conhecer a praça foi bem emocionante. Experiência semelhante eu só tive outras duas vezes na vida, quando vi a Mona Lisa pela primeira vez e quando estive na casa do Arcanjo Miguel, na França também”.

Com tantas experiências, é óbvio que Juliana voltou outra da China. “Esta viagem mudou a minha maneira de me ver, de ver o outro e até de enxergar o mundo, cheio de mazelas, mas com uma sutileza comovente”. Ela não se convence de que é corajosa por atravessar o mundo sozinha e chega a dizer que sua vida, por mais amada que seja, é ordinária. Talvez seja seu desapego por aplausos e sua preferência pela “vida real, feita de gente de verdade”, sem supervalorização ou rótulos, mas com muita emoção e empatia.