Era uma vez uma menininha que ficou muito doente e foi obrigada a passar três meses trancada em casa. O pai tentou distraí-la com um presente muito especial: uma coleção de contos de fada. Sem familiaridade com letras, Ângela foi abduzida pelas ilustrações, que espantaram para longe a dor, a tristeza e a solidão. Essa experiência ficou tão viva na sua memória e no seu coração, que ela decidiu na vida adulta criar um lugar onde sonhos e desejos se tornam realidade: a Casa de Livros.

Desde aquele episódio na infância, Ângela nunca abandonou a literatura. Seu xodó até hoje é a Obra Completa de Fernando Pessoa, lançada pela Editora Nova Aguilar. O exemplar também foi um presente do pai, que nem era tão fã assim de livros.

Seu sonho só tomou forma em 1987, quando se separou do marido. A sala da casa onde morava com as três filhas tornou-se, então, o casulo de um empreendimento corajoso e inspirador. “Os livros ocuparam primeiro a minha sala e, depois, a garagem; pouco a pouco, ganharam um novo espaço”.

A primeira Casa de Livros nasceu dentro de uma escola infantil, onde Ângela, sempre com ajuda das meninas, promovia feiras de livros. A necessidade de mais espaço aumentou junto com a empolgação. Assim, a livraria passou por mais um local antes de se estabelecer na Rua Capitão Otávio Machado, na Chácara Santo Antônio, em São Paulo. “Foi como se a vida costurasse histórias, compondo experiências e oportunidades que nos trouxeram até hoje”.

A Casa de Livros tem como objetivo, mais do que vender, formar leitores, um propósito imprescindível em um País em que 70% da população, segundo a pesquisa Retratos da Leitura, admite não ter lido um livro inteiro por vontade própria. “Procuramos criar esse vínculo afetivo entre o leitor e o livro”.

Para isso, Ângela e as filhas trabalham para despertar a consciência de adultos e crianças, fomentando o contato com esse universo encantado. “Promovemos alguns projetos para que as famílias entendam o quanto as crianças se envolvem com os livros quando compartilhamos as histórias. Com educadores, buscamos promover encontros e abrimos espaço para uma espécie de curadoria na formação das bibliotecas, tanto de sala como do acervo principal. Também convidamos palestrantes para falar sobre o ato de educar e a importância fundamental neste processo da literatura”.

Para cumprir uma missão tão árdua quanto mágica, Ângela não poupou esforços: imagine uma casa onde os tijolos são feitos de sonho, o telhado, de sorrisos, o jardim, de brincadeiras, as portas, de inspiração e as paredes, de letras. Sim, trechos de livros ou recados cordiais de escritores estão impressos por todos os cantos deste palco encantado. “Uma noite muito especial foi quando recebemos a visita do poeta Manoel de Barros, para o lançamento do livro Exercício de ser criança, pela Editora Salamandra. Lá o poeta diz que fazer poesia é carregar água na peneira. Esse exercício de encantamento com o mundo, com a realidade, é diário e necessário, para manter viva a lembrança de que somos humanos e de que precisamos do belo para termos a capacidade de transformar”.

Para quem ainda não se convenceu a abrir um livro, Ângela reforça: “A palavra carrega o fio que tece a vida. Não existe nada melhor para nos preparar para a vida do que falarmos das alegrias e das tristezas que ela poderá nos trazer. Os livros são esse presente, a possibilidade de vivermos todas essas experiências!”.