(Fonte: Arquivo Pessoal)

Daniel era ainda menino quando conheceu a feltragem, uma técnica não muito conhecida, mas muito antiga. Aprendeu na escola onde estudou em Botucatu. Lá o artesanato feito de lã de ovelha estava por toda parte – da decoração aos brinquedos. Sem que ele nem desconfiasse, essa memória afetiva virou, anos depois, ofício.

Em 2015, prestes a se formar em Antropologia e Sociologia pela Unicamp, Daniel quis apresentar a escola da sua infância para a namorada, que logo se encantou por uns bonequinhos que ela nunca tinha visto igual. No mesmo dia, quase sem querer, segundo ele, encontrou para vender um saquinho simples de lã cardada, com poucas cores, o suficiente para brincar e mostrar para Laura que ele ainda sabia mexer com aquelas fibras. “Na pedagogia Waldorf, as crianças têm contato com trabalhos manuais a partir do jardim de infância. Então, desde os dois anos, mexo com isso, mas essa foi a primeira vez que efetivamente fiz alguma coisa com a lã cardada. Criei anjinhos bem simples, apenas com nozinhos, sem nem usar as agulhas adequadas, que depois vim a descobrir que existiam.”

De acordo com Daniel, a lã de ovelha, depois de tosquiada, passa por um processo chamado “cardamento”. “É o pentear da lã, que “organiza” suas fibras e a prepara tanto para ser transformada tanto nos fios e novelos, quanto nas peças que produzo.” A mãe Adriana foi a primeira a perceber a beleza e o potencial das criações do filho. Fez o primeiro pedido de todos: mais anjinhos para presentear os amiguinhos dos irmãos mais novos. A primeira encomenda oficial surgiu logo depois: um móbile.

De boca a boca, o número de pedidos logo aumentou, lapidando o talento do jovem artesão que não gosta de se descrever para não tosar a sua liberdade. “Percebi que sou uma pessoa que não sabe se definir – e talvez prefira assim. No fundo, quero continuar me desenvolvendo e me transformando, sem ser uma coisa específica.”

Autorretrato (Arquivo Pessoal)

O Estúdio Lãpião, um trocadilho que mistura o nome do cangaceiro mais famoso com a matéria-prima da feltragem, surgiu logo depois, em 2016. Exibe no seu portfólio criações cada vez mais ousadas – de Frida Khalo ao quadro Noite Estrelada, de Van Gogh, passando pelo autorretrato que ilustra esse post. “Eu não me inspirei em ninguém e acho que isso foi um fator que me permitiu construir um caminho meu, de uma forma nova. Durante um intercâmbio em Portugal, dei expressões faciais às peças, o que não fazia antes por influência da própria pedagogia Waldorf. Percebi que nessa fase meu trabalho mudou: um elemento novo e super desafiador foi acrescentado, possibilitando me desenvolver ainda mais e explorar muitas coisas novas.”

Daniel conta que as pessoas, ao conhecerem seu trabalho, se surpreendem tanto com a técnica, quanto com o fato de que um homem está no comando das agulhas. “Quando a Laura, minha companheira, está comigo nos eventos e bazares, as pessoas a parabenizam pelo trabalho automaticamente. Percebo que ainda causa estranhamento, de uma forma positiva, quando falo que sou eu quem faço.”

O artesão diz que não tem uma peça preferida. “Cada uma vive em mim de um jeito diferente… São como filhos: ninguém tem um preferido, né?” E faz planos de continuar descobrindo possibilidades para as fibras de lã. Parece que, enquanto embaraça os fios, Daniel desembaraça o próprio futuro, sem preocupação alguma em delimitá-lo – só em não limitá-lo. “Acho que minha vontade é movida e guiada por minha curiosidade, que amplia os caminhos a serem descobertos. O sonho seria, para mim, uma prisão, no sentido de que determina um lugar a ser alcançado. Na verdade, eu prefiro deixar em aberto, deixar que essa curiosidade me leve.”