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Lúcia Helena Galvão, professora, poetisa e filósofa (Arquivo Pessoal)

Nem nesse período de isolamento social, a Professora Lúcia deixa de produzir. Ela não está cruzando o Brasil, de ponta a ponta, como costuma fazer, mas continua gerando conteúdo, promovendo palestras e participando de lives que desembaraçam Platão, Aristóteles, Cícero, Kant e outros tantos filósofos capazes de nos ajudar a compreender esse momento. “O grande desafio será, com certeza, reconstruir a vida quando a avalanche passar. Muita gente desempregada e faminta, e poucas soluções a curto prazo. É impossível pensar que as autoridades resolverão tudo, que “não é problema meu”. A autoridade que resolve, aí, é a humana, ou seja, a responsabilidade por sermos o que somos: seres humanos.”

Quem a conhece ou a segue nas redes sociais sabe de sua discrição. A Professora Lúcia Helena fala muito pouco de si, mas jamais se recusa a compartilhar seu conhecimento. E o faz com uma empatia e uma simplicidade única, não se colocando acima de seus alunos ou da sua audiência, mas como mais um ser humano em busca de aperfeiçoamento. “A lucidez é uma condição para ser filósofo: jamais se achar dono de qualquer verdade, mas apenas um buscador, que se aperfeiçoa através de cada migalha de sabedoria que encontra. Carl Jung dizia que um dos grandes riscos para o ser humano é a chamada “inflação do ego”, quando se imagina ser uma coisa que ainda estamos muito longe de alcançar.”

Foi na Filosofia que ela encontrou “a possibilidade de crescer como ser humano e de estimular o crescimento dos demais”. Pela internet ou pessoalmente, essa poetisa e filósofa esmiúça, com destreza e serenidade, temas como ética, sociopolítica e simbologia. Ela tinha 25 anos quando conheceu a Nova Acrópole, escola internacional que nasceu na Argentina, em 1947, e está hoje presente em mais de 60 países. “Ensinamos Filosofia à Maneira Clássica, ou seja, Filosofia para a vida”, conta a carioca que vive há muitos anos em Brasília. Ela diz que se apaixonou pela proposta diferenciada de formação humana, promovida através do voluntariado. “Aí nasceu um amor para a vida toda. Já se vão 31 anos.” Tornou-se, então, uma das professoras mais antigas e ativas da escola, que oferece alguns cursos gratuitos e outros, com preços bem acessíveis.

Para Lúcia Helena, o COVID-19 exige de cada um de nós “uma dose cavalar de solidariedade e empatia” e desmancha ilusões de que é possível voltar à “vida normal”. “O egoísmo era a verdadeira “pandemia”, chegando a um nível de contágio em que poucos escaparam, fazendo vítimas aos milhares, todos os dias. Uma célula que só pensa em si, ao invés de trabalhar para o todo, é cancerosa, que pode chegar a matar o infeliz corpo que a possui. Imaginem um corpo social infestado de células assim: quanto tempo nos restava? Mas a alienação e a ”distração” cotidiana com banalidades ofereciam-nos uma boa rota de fuga, e “tocávamos o barco”, ignorando a tempestade à frente. Se quisermos voltar às nossas rotinas individualistas antigas e esquecer o mundo, este pode desmoronar. É momento para compromisso e responsabilidade social, ou seja, pensar no outro como um problema nosso. Com isso, a vida nos obriga a sair de nosso casulo de egoísmo, o que, se conseguirmos realizar, será um enorme ganho de qualidade de vida para todos.”

Para a professora, a Filosofia pode ser o caminho para alumiar a realidade. “Temos agora o palco perfeito para o desenvolvimento da nossa vida interior: reflexão sobre a forma como vivemos, estabelecimento de uma meta maior para toda a vida, exame de nossas ideias para perceber quais são realmente nossas, desenvolvimento da nossa identidade e de autocontrole e autodisciplina.”

O primeiro passo, ensina, é iniciar um diálogo consigo mesmo. “Isso se chama “vida interior”: pensamos sobre quem somos (nossos princípios e valores), aonde queremos chegar com tudo isso (nossa vida como um todo) e avaliamos nossos hábitos e condutas para ver se nos levam a este ponto que pretendemos alcançar com nossas vidas. Eliminar incoerências. Viver de forma mais lúcida e autêntica, tomando decisões a partir de nossa própria “cabine de comando”: nossa identidade.”

Outro hábito a ser adotado é pensar mais no outro ao tomar decisões.  “Isso me beneficia apenas ou também a outros seres humanos além de mim? Procure fazer escolhas que tragam algo de positivo para o maior número de pessoas possível. Pense como humanidade.”

A terceira dica dela é romper, de vez, a bolha em que vivemos. “Perceber que nossa quarentena perpétua, presos em ideias prontas, em opiniões estereotipadas e impregnadas, às vezes, de ódio; que nossa rotina mecanizada e sem vida; e que nossas escolhas egoístas eram sufocantes, um isolamento sem prazo final. E estávamos confortavelmente instalados aí, há longo tempo. Reconhecer e amar a verdadeira liberdade.”

Finalmente, mas não menos importante, é cultivar o saudável hábito de desenvolver a disciplina e a ordem, o que inclui perceber como o caos em um ambiente externo suga nossas energias. “Uma dica: em um ambiente interno, é ainda pior!”

Está montada, assim, a trilha para uma vida com mais autonomia e consciência para julgar o que se vê, ouve e sente. “A Filosofia ilumina as possibilidades de cada momento de nossa vida, mostrando todos os aspectos construtivos que ele pode possuir.”