Deixo a casa sozinha sem fone de ouvido, sem documento, condenada a desfrutar da minha própria companhia, do anonimato como uma fuga da rotina. Cruzo ruas e pensamentos, desvio de carros e sombras, reparo nas cores e ruínas de uma cidade que insiste em me lembrar da constante transição da vida.

Por um portão lateral do parque, deparo-me com diversas trilhas. Escolho a de pedras, estreita e escorregadia, como tantos momentos dos últimos dias. Atravesso uma linha invisível, que dilui, a cada passo, o cinza e a apreensão em uma paleta de azul, roxo e verde, colorindo realidades paralelas, interligadas e infinitas. A cada inspiração o mundo à minha frente se revela diferente, em sons, cheiros e brilhos.

Enquanto o Jacarandá me estende um delicado tapete lilás, três bem-te-vis compartilham a brisa quente; enquanto o buldogue toma água de coco, a pitangueira presenteia-me com o seu perfume quando lhe roubo um fruto; enquanto os cisnes negros se enfileiram, o ganso branco esbraveja; enquanto o garotinho persegue o carro elétrico comandando pelo pai, o vento brinca com a capa vermelha dele, emprestando-lhe o seu superpoder; enquanto o corredor faz durante o treino careta de dor, a árvore cujas folhas sobre o tronco lembram pelos se alonga para tocar o céu; enquanto a moça brinca de fazer selfie com a mãe, a carpa desfila no lago preguiçoso.

Ainda perdida, sento-me para um refresco e percebo que a minha mente não me dá sossego. Não estou sozinha nem por um momento. Registro tudo, sinto tudo, vivo tudo que vejo. Há vida pulsando lá fora e acendendo um pavio aqui dentro. Ou seria o contrário?