BuzzFeed / Manuel Dietrich Photography

 

Se tinha um propósito na vida, como vários coachings, mentores, psicólogos e especialistas na vida alheia defendiam, o de Laura era esse: nada de monotonia, só felicidade extrema, a qualquer custo. Ela trabalhava duro para isso – malhação pesada, além de visitas semanais à psicóloga, massagista, cabeleireiro, manicure e pedicure. Casou-se, separou-se, adotou um gato, arranjou outro(s) namorado(s), viajou o mundo e conquistou uma vaga super disputada em uma multinacional. Até o dia em que o rótulo de bem-sucedida, junto com todos os outros, deixou de ser suficiente. Nenhum lhe cabia mais. Aquele vazio, mesmo rebocado, fazia um barulho incômodo – como o eco dos pingos do chuveiro na madrugada vazia.

Laura não sabia quando nem como isso aconteceu. Pode ter sido do dia para a noite, mas talvez tenha levado meses. Fato é que nada mais lhe satisfazia: as regras de etiqueta e a política corporativa lhe comprimiam mais do que o sapato de bico fino e salto 7 que usava todos os dias e provocavam calos doloridos nos terceiros e quartos dedos dos pés. Bater meta virou só mais uma obrigação pelo salário de cinco dígitos, que também não lhe preenchia. Podia comprar o que quisesse, é verdade, mas que graça tinha?

Aflita, foi a uma cartomante, que previu uma reviravolta em sua vida. “Está na hora de resgatar o castelo que construiu nas nuvens”, sugeriu a vidente. A cética Laura, mesmo irritada com a metáfora infantil, buscou no Waze um atalho até o seu destino, mas o serviço estava indisponível para aquela região.