Tela “Pássaro da Liberdade”, por Clarice Lispector (IMS)

Foi Caio Fernando Abreu quem melhor expressou o que eu sentia sobre Clarice Lispector. “Ela é demais estranha”, escreveu à Hilda Hist. “Ela é exatamente como seus livros: transmite uma sensação estranha, de uma sabedoria e de uma amargura impressionantes. (…) Tem olhos hipnóticos quase diabólicos.”

É claro que eu não cheguei a conhecê-la pessoalmente e, talvez, por isso nunca tenha tido “febre e taquicardia” como o escritor gaúcho. Só que ela também sempre causou em mim uma perturbação com seus textos, suas analogias profundas, suas personagens sofridas, suas frases enigmáticas e seus desabafos literais. Eu nunca consegui dizer “gostei”, mesmo compartilhando, vez ou outra, daquela “felicidade clandestina”.

Senti-me, sempre, pressionada não só pelo alvoroço da mídia, críticos e fãs, mas pela presença de Clarice, que me rondava e me observava, não à espera do meu veredito, mas do momento mais apropriado para me condenar. Quem sou eu, afinal, para ser impermeável a ela?

Soprei esses fantasmas para longe ao descobrir Haia, nome verdadeiro dela, cuja origem remete à palavra “vida”. Sua mãe Mania, ou Matilde, como veio a ser conhecida no Brasil, era portadora de uma doença degenerativa. A família da Tchetchelnik, na Ucrânia, apegou-se à crença de que um filho tem o poder de curar a progenitora de uma doença. Foi assim que Leia e Tania ganharam a irmã caçula. A superstição não se cumpriu: a criança nasceu e a mãe, já debilitada, faleceu cerca de dez anos depois.

Em uma de suas crônicas, Clarice escreveu: “E sinto até hoje essa carga de culpa: fizeram-me para uma missão determinada e eu falhei. Como se contassem comigo nas trincheiras de uma guerra e eu tivesse desertado. Sei que meus pais me perdoaram por eu ter nascido em vão e tê-los traído na grande esperança. Mas eu, eu não me perdoo. Quereria que simplesmente se tivesse feito um milagre: eu nascer e curar minha mãe.”

Meses antes de morrer, Clarice descobriu por uma tia que a mãe mantinha um diário, onde descrevia sua rotina e escrevia poesias. Gosto de pensar que, com essa descoberta, a caçula fez as pazes consigo mesma, pois descobriu que cumpriu seu propósito, ou a missão que lhe foi confiada, ao eternizar, ainda que inconscientemente, aquela parte secreta de sua mãe: a escrita. Talvez isso explique até o domínio compulsivo, quase sobrenatural, que essa arte ou exercício mantinha sobre ela. Na mostra “Constelação Clarice”, no Instituto Moreira Salles – IMS , é possível ver um de seus rabiscos: “Escrevi isso não sei porque, acho que é para não deixar de anotar alguma coisa.”

Era orgânico, a escrita servia-lhe como uma função essencial, tal qual respirar. Nessa jornada de descoberta, acolho Haia e Clarice em mim, desejando ardentemente que, antes de seu último sopro de vida, ela tenha conseguido se libertar da culpa ou que tenha se tornado o “Pássaro da Liberdade” (foto) que um dia pintou, sem técnica ou presunção, só leveza e júbilo.

*A exposição no IMS é gratuita e pode ser acessada pelo site. A carta de Caio Fernando Abreu faz parte da obra “Três Vezes Hilda”, da Companhia das Letras.

** Este texto foi originalmente publicado no blog Mais Um Café?