O pequeno feixe de luz que atravessava o quarto empoeirado por uma fresta da janela era uma presença solitária naquela casa amargurada pelos ventos opostos que insistiam em chacoalhar sua estrutura.

O clima naquela região do país havia mudado bruscamente – a primavera, em vez de colorir e perfumar os ambientes, ressecava as paredes externas, que despelavam em camadas cada vez mais profundas; o verão, agora de escassas tempestades, expirava para dentro da casa o cheiro de mofo das memórias de dias felizes cada vez mais distantes; as rajadas de vento do outono rasgavam os papéis de parede, expondo feridas antigas, mas ainda presentes no concreto esfacelado; o inverno, enfim, selava os ecos das sombras durante as noites extensas e geladas da mais pura solidão.

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