O pequeno feixe de luz que atravessava o quarto empoeirado por uma fresta da janela era uma presença solitária naquela casa amargurada pelos ventos opostos que insistiam em chacoalhar sua estrutura.

O clima naquela região do país havia mudado bruscamente – a primavera, em vez de colorir e perfumar os ambientes, ressecava as paredes externas, que despelavam em camadas cada vez mais profundas; o verão, agora de escassas tempestades, expirava para dentro da casa o cheiro de mofo das memórias de dias felizes cada vez mais distantes; as rajadas de vento do outono rasgavam os papéis de parede, expondo feridas antigas, mas ainda presentes no concreto esfacelado; o inverno, enfim, selava os ecos das sombras durante as noites extensas e geladas da mais pura solidão.

O feixe de luz resolveu por birra suturar sozinho as insônias, os fracassos, os mau agouros – trabalho árduo e quase indecoroso. Pouco a pouco, dia após dia, com mais ou menos brilho, de acordo com uma vontade que não era só sua, já que a intensidade da sua energia também dependia de outros feixes, ele dissecou cada ambiente, eliminou a umidade infiltrada em paredes e pisos, transmutou impurezas aparentemente imperceptíveis a olho nu.

O velho casarão, após alguma resistência, deixou-se restaurar lentamente – não por instinto de sobrevivência, mas por uma sabedoria intrínseca em relação à necessidade de abrir espaço para a atualidade. Em meio àquela reforma íntima, ele resgatou da velha fundição a alegria de outros tempos, de um futuro forjado pela imaginação e pela persistência.