Cega e esquecida. Esse também foi o destino de outra mulher extraordinária, nascida no século XVIII, dessa vez, em Setúbal, Portugal. Ela foi a terceira dos cinco filhos de um professor de música, que trocou as aulas no interior por um emprego de copista de orquestra na capital. Apostou que lá ele poderia dar mais condições à família extensa – e não estava errado.

A filha do meio se encantou cedo pelos palcos, estreando aos 14 anos em uma peça de Moliére. Dois anos depois, casou-se com um violinista italiano, que moldou a sua carreira no canto lírico. Seu talento era tanto que a fama da jovem mezzo-soprano não demorou a extrapolar as fronteiras portuguesas.

Ela percorreu as principais cortes da Europa e se apresentou nos palcos mais famosos, diante de plateias ilustres, como a de Catarina – a Grande. A imperatriz russa a cobriu de benevolências e ofereceu a ela a tiara de brilhantes que trazia na cabeça.

Quem também se encantou por ela foi Luiz XVI e Maria Antonieta, às vésperas da revolução de 1789, durante um concerto em Versalhes. A rainha francesa não ofereceu à cantora brioches, mas um anel com o retrato da soberana.

Não era só a nobreza que se rendia ao talento da portuguesa, que despertava paixões por onde passava. Em sua homenagem, bustos foram esculpidos e poemas, escritos. Itália e França a disputavam fervorosamente. Neste último, era chamada de “cantora da nação.”

A vida pública, já naquela época, era bem diferente da privada. As finanças da família, apesar de tanto glamour e sucesso, eram dilapidadas pelos vícios do marido.

O retorno a Portugal, às vésperas do século XIX, contrariou qualquer expectativa. A pátria não a acolheu como esperava, o público já não a reconhecia. Sua última apresentação, na cidade do Porto, em 1801, selou sua despedida.

A morte do marido foi mais um golpe em sua vida, assim como a fuga apressada para Lisboa, para escapar das tropas napoleônicas. Parte de sua fortuna se perdeu na empreitada e o que lhe restou foi o suficiente somente para se instalar em uma casa modesta no Bairro Alto. O contraste era cruel: dos banquetes da nobreza à escassez e anonimato. Quando faleceu, aos 80 anos, em 1833, não foi só a luz do palco e da fama que se apagou.

Ela foi sepultada em uma igreja, transformada depois em chapelaria, loja de artigos religiosos e, finalmente, em um antiquário. Dizem que o seu túmulo continua lá, sob um chão de tijolos, praticamente anônimo. Em ruínas também permanece a casa onde nasceu, no centro histórico de Setúbal.

Recuperar a sua importância não é um trabalho fácil. No século XVIII, não havia recursos de gravações para que o seu talento fosse apreciado pelas gerações seguintes. Mas há relatos, registros e, principalmente, o trabalho de estudiosos e figuras ilustres.

Uma delas, já falecida, era uma fã fervorosa da cultura nacional. Amália Rodrigues nunca se esqueceu de que, antes dela, outra portuguesa arrebatara corações mundo afora. E que o seu nome era Luísa Rosa de Aguiar Todi.