Eu aposto que aquela menina que preenchia cadernos e diários com poesias e histórias jamais imaginaria que a sua paixão pela escrita a conduziria a um propósito tão especial.
Há mais de 20 anos Marisa Fonte encontrou espaço entre contos e artigos para explorar um novo caminho: a literatura espírita. Essa vertente aborda conceitos profundos como a continuidade da vida e a reencarnação, dando voz a histórias que atravessam planos e dimensões.
O primeiro romance, “Minha vida do outro lado da vida”, surgiu de uma parceria tão improvável quanto significativa. Ela e Roberta lecionavam Inglês na mesma escola. Embora não fossem amigas, havia entre elas algo que transcendia o respeito entre colegas. “Eu sempre admirei o sorriso largo e a alegria dela”, conta.
Roberta faleceu precocemente – aos 23 anos, de leucemia. Contudo, o vínculo entre elas não se encerrou ali – pelo contrário, os encontros extrapolaram os limites do ambiente escolar.
À época, Marisa já frequentava um centro espírita onde aperfeiçoou a psicografia, habilidade desenvolvida por médiuns para canalizar mensagens enviadas por espíritos desencarnados. Entre treinamentos e sessões, ela preencheu cadernos de cartografia com mensagens repletas de consolo, amor e esperança, cada uma carregando um propósito único.
O primeiro pedido de Roberta, já em outro plano, foi direcionado à própria família: um recado carregado de ternura e conforto. A afinidade entre as duas cresceu, e, desse vínculo renovado, nasceu o convite para um desafio maior — escrever um romance.
Assim surgiu o livro que narra a trajetória de Roberta após a desencarnação, um relato carregado de sensibilidade e fé sobre aceitação e superação.

Para Marisa, a psicografia não é uma missão, mas uma “tarefa abençoada” — embora, como qualquer trabalho, demande disciplina e entrega. Semanalmente, ela e Roberta se encontram em um dia e horário pré-determinados, para que o espírito dite as histórias que ganham vida através da escritora.
Ao contrário do que muitos imaginam, Marisa não perde a consciência durante o processo de psicografia – pelo contrário, a médium permanece totalmente presente e focada, para garantir que a mensagem seja captada e transcrita com precisão e agilidade. “Esse trabalho requer muita atenção da minha parte”, enfatiza.
Nos primeiros anos, tudo era escrito à mão, o que tornava o processo mais demorado e trabalhoso. Com o tempo e a prática, Marisa adotou o computador, otimizando significativamente o fluxo de trabalho. Ainda assim, ela mantém o controle total sobre o material produzido, incluindo a revisão antes de enviar o texto para a editora.
A conexão com os espíritos, incluindo Roberta, também se tornou mais natural com o passar do tempo. Isso não significa que o trabalho ficou mais mecânico ou perdeu parte do seu encanto. “Comparo essas obras a vaga-lumes, pois são pequenas luzes que podem clarear a escuridão, que por vezes nos envolve em meio às turbulências pelas quais todos nós passamos em alguns momentos das nossas vidas”, reflete Marisa. “É por isso que me dedico a essa tarefa com alegria e gratidão, e espero poder fazer esse trabalho até o dia em que seja convidada para ir para o outro lado da vida, onde continuamos vivos, porém em outra dimensão”, explica.
Marisa ressalta que as histórias ditadas por Roberta e outros espíritos são baseadas em fatos, embora detalhes como nomes e localizações sejam alterados. O ponto em comum entre elas é o convite à reflexão. “As histórias sempre salientam que somos seres em construção, que transitam no planeta com o intuito de aprender e de evoluir, estando, portanto, sujeitos a equívocos”, diz. “Apesar de tais equívocos, sempre é possível recomeçar e reescrever a nossa história de modo diferente quando nosso modo de ver e entender as situações se modifica. Isso torna a nossa jornada aqui na Terra bem mais leve.”
Para ela, a psicografia é, também, “uma oportunidade única”, pela possibilidade infinita de aprendizado. E dá uma dica da principal lição: ninguém está só no Universo. “Sempre haverá uma mão amiga estendida para nós. Para isso, basta que nos conectemos ao lado invisível para receber o conforto necessário. É o “buscai e achareis” que Jesus ensinou”, reforça.
Marisa esclarece que os seus livros não são direcionados somente aos seguidores da doutrina espírita, mas a qualquer pessoa que queira aprender um pouco mais sobre a vida e compreender que nada é castigo. “Aqueles que vivem momentos de grande desafio encontram também consolo e aprendizado lendo as obras”, destaca.
Ao longo desses 20 anos, ela aprendeu que confiar na vida é essencial e que, mesmo diante dos desafios mais difíceis, não se pode sucumbir ao desânimo. “Nos momentos de maior dificuldade, recorra à prece, pois ela nos conecta com seres dispostos a nos oferecer o auxílio necessário”, aconselha.
A mensagem final de Marisa é um lembrete poderoso para quem enfrenta as incertezas da jornada: “Mantenha a fé, a coragem e a confiança. Acredite: não importa quão difíceis sejam os caminhos, tudo se ajeita na hora certa.”


10/01/2025 at 5:16 pm
Que história incrível, Tati. Parabéns pela sensibilidade e delicadeza com as quais você tratou o tema.
CurtirCurtir
21/02/2025 at 12:53 pm
Obrigada, querida.
CurtirCurtir