Difícil não reparar em B — e não falo do porte físico bem definido, mas da presença. Sempre bem-humorado, educado e ágil. Por isso, sou sempre atraída para o caixa dele, mesmo que esteja mais movimentado.
Um dia, entre um item e outro, ele revelou que gosta de cantarolar mesmo quando está triste. Contou que, embora seja comunicativo, tem dificuldade de expressar o que sente, então por meio de uma música ele consegue atravessar o que incomoda e libertar o que não serve.
Ontem, ele estava treinando uma colega para operar a balança, o caixa, tudo. “Mas a melhor parte,” disse para ela, “são os clientes. Poder conhecer pessoas novas, trocar ideias.” Contrariando o filósofo, que disse que o inferno são os outros, para ele, não é. Não mesmo.
Quando me intrometi, dizendo à novata que mentor melhor ela não teria, ele sorriu desajeitado e reconheceu que não é bem assim. Um pouco antes da minha chegada, um cliente antigo fez questão de demonstrar o seu descontentamento com ele. Para o tal, não bastava escolher outro caixa. O homem fez questão de apontar e gritar. B, para minha surpresa, o defendeu: “Coitado, deve estar num momento muito ruim da vida. A gente sabe como é isso.”
Eu tentei concordar: “A gente sabe, mas isso não é justificativa.”
Ele insistiu: “É, sim. Tem gente que simplesmente não consegue reagir e sair desse lugar de dor e ódio.”
Fui embora com as compras e com as palavras de sabedoria pesando na sacola e na cabeça. No ônibus, posicionei-me ao lado de uma leitora. Não conseguia ver a capa do livro, mas notei que ela não piscava. Estava completamente enfeitiçada. Como sou daquelas que não têm vergonha de ler por cima dos ombros alheios, vi logo o que a prendia.
O título do capítulo da obra cristã era: “Prazer, eu sou o Amor.”
Falava sobre como somos diariamente atravessados por traumas, pequenos e grandes, que se somam aos que já carregamos. As pessoas que nos apontam o dedo, que esbarram nos outros sem pedir desculpas, que xingam ao menor desconforto são as que não conseguem quebrar o ciclo de violência, permanecendo presas em um lugar sombrio, onde o sofrimento, o ódio e o descontentamento se perpetuam.
Eu me lembrei do B e de Guimarães Rosa, que avisou que viver é um chamado à coragem. “O que Deus quer é ver a gente aprendendo a ser capaz de ficar alegre a mais, no meio da alegria, e inda mais alegre ainda no meio da tristeza!”, cravou em Grande Sertão: Veredas.
Há corajosos que cantam para espantar os males e espalhar amores.
Há quem reaja com sorrisos e gentileza.
É resistência silenciosa e verdadeira.
É a mais pura revolução acontecendo bem diante dos nossos olhos.


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