
Maria Firmina parece repetir a sina de um país de memória curta e seletiva. Morreu doente, cega e esquecida e assim permaneceu por um tempo muito além do desejável.
Filha de uma escrava alforriada, ela desafiou as barreiras de seu tempo. Aprendeu as letras, tornou-se professora e não se limitou à sala de aula. Com uma mente afiada e indomável, foi compositora, cronista, poeta e romancista.
O Brasil ainda era colônia, vivendo do sangue e do suor dos escravizados, quando Maria Firmina se tornou uma figura ativa na imprensa e na sua comunidade no Maranhão. Foi assim, como “uma maranhense”, que ela lançou, em 1859, apenas nove anos após a Lei Eusébio de Queirós, que proibiu o tráfico negreiro, a obra Úrsula, que fez dela a primeira romancista negra da Língua Portuguesa, do Brasil e da América Latina.
O livro carrega todos os traços do Romantismo: idealismo, o sofrimento amoroso, as longas descrições de paisagens, a fuga da realidade. Assim como Jane Eyre, de Charlotte Brontë, a protagonista de Maria Firmina demonstra que é possível preservar a integridade moral diante do sofrimento humano agudo. Da mesma forma que Jane Austen, a romancista brasileira expõe com elegância as injustiça e convenções sociais. O seu Úrsula dá voz a quem não tinha – e demoraria a ser tratado como cidadão. Revela uma realidade assombrosa ainda pouco (re)conhecida do comércio e da exploração de humanos por humanos.
Seu pioneirismo não se limitou à Literatura. Criou uma escola mista no Maranhão, no início da década de 1880. À época, as mulheres haviam acabado de conquistar o direito de frequentar a faculdade, um privilégio de poucas, que precisavam ainda da permissão de pais ou maridos. A taxa de analfabetos no país beirava os 70% – e as meninas e mulheres, ainda cidadãs de segunda categoria, formavam a maioria.
A elite não perdoou a ousadia e insubordinação de Maria Firmina. A escola fechou as portas em dois anos. Ela, que nasceu em 11 de outubro de 1822, em São Luís, tornou-se uma pária. Ficou sem dinheiro, sem saúde, e foi acolhida por uma conhecida, alguém que no passado se beneficiara de sua generosidade. Faleceu em 11 de novembro de 1917, aos 92, em Guimarães. Não restou um registro fotográfico dela, seus arquivos evaporaram, como se o destino quisesse apagá-la.
Mas não quis. Úrsula ganhou novas edições. E o nome de Maria Firmina dos Reis foi resgatado, ainda que o reconhecimento seja tímido perto do seu legado.

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