Conheci outro D pelas ruas de São Paulo. Entre os pontos em comum com o primeiro está o nome, não exatamente igual, mas uma variação do outro, também cheio de vogais, com a terminação “son”.
“Eu fui colocado no mundo para morrer”, anunciou ele logo nos primeiros minutos de conversa. Sua história é menos trágica do que a sua frase sugere, mas não menos interessante.
O fim da década de 1990 foi marcado por teorias de conspiração, causadas por uma possível pane generalizada de sistemas e serviços, tudo porque os computadores e máquinas não teriam sido programados para entender a virada para o ano 2000. Logo, a leitura se tornaria 1900, com consequências apocalípticas, como explosões de bombas nucleares, queda de aviões, blecautes, falta de água etc.
É claro que muita gente recorreu a Nostradamus e a outros profetas e gurus. Até uma música do Prince se tornou um indicativo de que o Dia do Julgamento Final estava se aproximando. Aprendi que o medo do fim do mundo tem nome: Calipsefobia.
Quando ouviu a notícia, a mãe de D, então uma menina de 14 anos, não teve dúvidas: ela não morreria antes de realizar o sonho de ser mãe. Não se preocupou com a idade, com o que as pessoas diriam ou com idealizações românticas. Seu objetivo era só um: viver a experiência da maternidade, mesmo que por um breve instante.
Como todo mundo sabe, os cronômetros zeraram e nada aconteceu – quer dizer, nada, não. Havia ali, no coração do Recife, uma mãezinha realizada. A criança tinha apenas quatro meses e foi tão mimada que ganhou um nome exclusivo, como nenhum outro ser humano neste mundo.
A jovem nunca se arrependeu da experiência – pelo contrário, abraçou a maternidade como a sua missão. Teve mais nove filhos – dos quais somente o segundo recebeu a mesma graça que o primogênito. A primeira menina também ganhou um nome singular, com a mesma consoante inicial do irmão mais velho, seguida de vogais que só a criatividade da mãe poderia forjar.
D diz que a ameaça de um fim precoce moldou o vínculo entre mãe e filho. Os dois são tão próximos que ele demorou 26 anos para deixar a sombra das asas dela. Veio para São Paulo em busca da “falsa ilusão de ganhar dinheiro”. Chegou aqui, com emprego garantido e um salário de fazer qualquer pernambucano sonhar. O que ele não sabia é que o dinheiro de lá não valia tanto aqui. Terminava o mês contando as moedas, mastigando o futuro que havia sonhado para si.
Os três meses de experiência no emprego foram, para D, uma escola sobre a vida. Trocou a carteira assinada pela “empreendedorismo” do motorista de aplicativo. Quando fica parado no trânsito paulistano, é tomado pela saudade da sua terra e de sua gente. Mas antes de correr de volta para o aconchego materno, ele decidiu explorar o mundo. Não sabe exatamente para onde vai, mas uma coisa é certa: seu coração continuará preso ao dela, onde quer que esteja.


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