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Doce Viagem

O melhor da vida na nuvem

Vidas em minutos

Da janela, um presente mal captado pela lente do celular. O ipê roxo segue o seu ciclo de vida e morte. Já não está tão cheio, mas ainda tira o fôlego. Resplandece nos dias de sol, de chuva, de nuvens carregadas. Cumpre sem papel, sem desculpa, com propósito, de propósito.

Do alto é possível ver a quantidade de passarinhos que o visita. Diferentes espécies. Entre elas, um grupo de periquitos. Namoram a flor antes de fazer chover pétalas, que cobrem o telhado da casa, o quintal, a calçada formando um tapete delicado. Brincam de galho em galho. Quando o momento chega, um momento tão deles, saem juntos para um novo destino. Parecem guinchar de alegria, como crianças em um parquinho, partindo para um novo brinquedo.

Há muitos detalhes nesse quadro emoldurado pela minha janela. Uma fuga da realidade apressada e barulhenta. Uma fuga da ilusão. Um encontro com a verdadeira vida. Muitas vidas em poucos minutos de observação.

Desafogo (IV-IV)

A vida sempre cobra um preço

há ganhos e prejuízos

sou dona do meu tempo

mas sou órfã de filhos

*

Um amor que não experimentarei

um colo que não darei

uma parte de mim que não doarei

um legado que não deixarei

*

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Desafogo (III-IV)

Minha solidão não é deserto

não sou um terreno de terra batida

construo diariamente o meu templo

sobre terra fértil e bendita

*

Eu estou solteira

eu não sou solteira

A vida não é ciência exata

o caos tem lá a sua graça

*

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Desafogo (II-IV)

Por maior que seja o meu desejo

nunca me deixei levar pelo medo

nem pela pressa ou pela ansiedade

mesmo sob a pressão da idade

*

Quero ainda andar de mãos dadas

quero ainda dormir de conchinha

quero ainda ser amada

quero ainda ter e ser companhia

*

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Desafogo (I-IV)

Escrever essas palavras

há tanto engasgadas

só me torna mais forte

me traz liberdade e sorte

*

Avancei na idade adulta

sem compromisso ou casamento

a mulher que vive avulsa

levanta questionamentos

*

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Poeta II

No supermercado, enquanto cheirava as mangas, Ana encontrou aquele que parecia ler sua alma nos livros e posts que escrevia e publicava.

Aproximou-se do poeta, perdido entre peras e melões. Ela nem esperou que ele se decidisse. Disparou a falar com o dedo à altura do seu discreto nariz:

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Poeta I

Todos os dias ao acordar Ana corria para a internet. Não se importava com as notícias, não lia o horóscopo, consumia somente poesia. De um único autor.

Naquela manhã, ele tinha postado uma carta de amor. Cada palavra parecia datilografado no coração de Ana:

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O invisível

Ela saiu da reunião e logo trocou o salto pelo tênis. O céu riscado chorava lágrimas finas, tão diferentes daquelas que Juliana segurava dentro de si. Ela respirou fundo e sentiu a bile da rejeição subir à boca. Era só mais um dia de autoestima dilacerada, pensou.

Procurou na bolsa a sombrinha, deixada no conforto do sofá de casa. Enfrentou a rua com a cabeça erguida – não por orgulho, para sobrevivência. A cada passo sua roupa ficava mais encharcada; sua alma, mais pesada. Resistir era exaustivo.

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