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O tempo havia se esgotado. Aos oito meses de gravidez, Diana sabia que seu bebê podia nascer a qualquer momento. Para que sua filha tivesse a cidadania inglesa, ela precisava se casar com Daniel. Logo. 

A essa altura, ela já havia desistido da tradição, de entrar na igreja de branco, de festejar com amigos e com a família. O momento exigia praticidade. Nada mais do que isso.  Dar conta da burocracia e encontrar um cartório já era mais do que suficiente. “Fuja da capital ou não dará tempo”, sussurrou um funcionário da embaixada britânica, compadecido com a situação da jovem mãe.

Diana gostou da ideia. Já imaginou um casamento na mística Pirenópolis. Não seria um desfecho perfeito? Burocracia atendida, união abençoada. Só que um telefonema a um cartório local desfez o incipiente sonho: somente residentes podem se casar na cidade. Regras locais.

Diana abriu, então, a lista telefônica. Lembra-se daquele calhamaço de letras minúsculas? Foi lá que ela encontrou uma pequena cidade goiana, a pouco mais de uma hora de Brasília. O próprio dono do cartório atendeu o telefone, mas não passou muita informação. “Venha aqui. Conversamos pessoalmente sobre isso”.

Não havia tempo a perder, certo? Diana pediu o endereço e alguma referência.  “Na praça”, respondeu Seu Armando. Onde? Qual o nome da rua? “Na praça”, repetiu, antes de desligar o telefone.

As coordenadas estavam corretas. Quase vinte anos atrás, a praça era o centro desse município e o cartório do Seu Armando ocupava um dos pontos centrais. Era um estabelecimento simples, sem identificação. Só uma porta e um balcão. Diana entrou e logo se identificou. Os olhos de Seu Armando só fitavam sua barriga. Ele parecia não escutar nada: taciturno, inclinava a cabeça, erguia uma sobrancelha e espremia os lábios, sem tirar os olhos da barriga. Só o fez para dizer:

– É…a gente precisa resolver isso. Cadê o pai?

Ele nem havia reparado em Daniel, que estava ao lado de Diana.

– Ele é estrangeiro?

Ao ouvir a confirmação, Seu Armando voltou a olhar a barriga, inclinou a cabeça, ergueu uma sobrancelha, espremeu os lábios e disse:

– É…a gente precisa resolver isso. Você trouxe testemunhas?

Diante da negativa e sem tirar os olhos da barriga, Seu Armando prometeu resolver a situação. Afinal, não havia mesmo tempo a perder. Ao desconhecido que acabara de entrar no cartório, ele deu ordens para que não fosse a lugar algum. Contornou o balcão, atravessou a rua e abordou um homem sentado em um dos bancos da praça. Falou, gesticulou, apontou para o cartório e, em poucos minutos, estava de volta, seguido pelo outro desconhecido.

– Pronto! Resolvido! Você já tem duas testemunhas. Expliquei sua situação para o Toninho e ele concordou em ajudá-la. Este outro veio registrar o filho e também precisa de testemunha, então você será a dele. Assinem todos aqui.

Uma vez que a papelada (do casamento e do nascimento) estava pronta, Seu Armando mandou a grávida e seu noivo voltarem em quinze dias. Deu uma última olhada naquela barriga, espremeu os lábios e sacudiu a cabeça, antes de virar as costas e retomar sua rotina.

Duas semanas depois, Diana instalou-se com os pais e os irmãos no único hotel da cidade, também na praça.  Daniel levou somente um amigo, também inglês. Poucos sabiam sobre cerimônia. Só deu tempo de comprar um vestido branco, a única tradição que não foi completamente abandonada.

Na hora marcada, Diana deixou o hotel e se dirigiu à porta ao lado. Foi recebida pelo próprio Seu Armando. “Não haverá cerimônia aqui”, avisou.

– Como assim? O senhor desistiu? Eu trouxe minha família, estou de branco…

Seu Armando apontou para a casa do outro lado da praça. Mesmo sem convite, os amigos de Diana e Daniel chegaram à cidade minutos antes e causaram um rebuliço. Com ajuda do dono do cartório, conseguiram localizar o responsável pela Câmara Municipal e abrir o salão principal para a cerimônia. O espaço, que até foi varrido para a ocasião, era ligeiramente maior e tinha como único item de decoração o balde com gelo, champanhe e copos de plástico, também trazidos pelos amigos.

Foi ali que Diana e Daniel se casaram com a benção de parentes e amigos próximos e de Seu Armando, que já não escondia sua satisfação ao olhar, agora, o casal nos olhos.

A celebração podia ter terminado ali, na pequena praça. Só que o irmão mais velho de Diana, inspirado pela surpresa feita pelos amigos, resolveu estendê-la. Fez às pressas reserva no restaurante de um clube de Brasília e foram todos para lá, em comboio. A ocasião pedia uma boa comida e uma bebida apropriadamente gelada.

Enquanto todos se divertiam, Diana desceu até a piscina e se esticou em uma espreguiçadeira. Aos oito meses de gravidez, ela estava exausta. Antes de cair em um sono profundo, ela relembrou o dia inusitado e… inesquecível. O primeiro do resto da sua vida.