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Doce Viagem

O melhor da vida na nuvem

Autor

Tati

As histórias dentro da história

Foto: Milonaina / Pixabay

Foi em um 13 de janeiro que D subiu ao altar pela primeira vez. Tinha apenas 15 anos quando seu uniu àquele homem 9 anos mais velho. O sobrenome e o status social da família dele podiam cobri-lo com o brilho de um príncipe encantado, mas o comportamento o denunciava: era violento e viciado em jogo.

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O girassol que tinha medo de atravessar a rua

Arquivo Pessoal

“Covarde!”

“Estranho!”

Os humanos estavam cheios de adjetivos maldosos para o girassol que permanecia estacionado à beira de uma das avenidas mais movimentadas da cidade. Nada parecia afetá-lo: nem os xingamentos, nem as buzinadas, nem as gargalhadas.

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Bailando pelo papel

Chego ao fim de mais um caderno, por cujas pautas ensaiei quem fui, quem sou, quem sonho ser e quem, talvez, nunca serei. Afinal, não decorei a coreografia e, por vezes, me perdi em um passo diferente, seguindo um compasso sussurrado, quem sabe, pelo vento. Aprendi com Clarice que nada às vezes faz sentido, nem precisa fazer eternamente – basta um instante, um instante de um segundo, um minuto, uma hora, um dia, uma semana, um mês, um ano, uma vida. Sem sapatilha, suja de tinta, sigo a melodia silenciosa, ou talvez seja misteriosa, porque parece que ninguém mais a escuta, só meus pés a conhecem, só minha mão direita é capaz de traduzi-la. Uma confusão única, obra de uma existência.

Esse post foi originalmente publicado no blog Mais Um Café?

Quem Eu Sou

Não sou um deserto

Sem sentimento

Sem horizonte

Sem casamento

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Para o Ano Novo

Para este novo dia

Para este novo ano

Que não falte poesia

Para espantar o desânimo

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Vamos conversar sobre Clarice Lispector?

Tela “Pássaro da Liberdade”, por Clarice Lispector (IMS)

Foi Caio Fernando Abreu quem melhor expressou o que eu sentia sobre Clarice Lispector. “Ela é demais estranha”, escreveu à Hilda Hist. “Ela é exatamente como seus livros: transmite uma sensação estranha, de uma sabedoria e de uma amargura impressionantes. (…) Tem olhos hipnóticos quase diabólicos.”

É claro que eu não cheguei a conhecê-la pessoalmente e, talvez, por isso nunca tenha tido “febre e taquicardia” como o escritor gaúcho. Só que ela também sempre causou em mim uma perturbação com seus textos, suas analogias profundas, suas personagens sofridas, suas frases enigmáticas e seus desabafos literais. Eu nunca consegui dizer “gostei”, mesmo compartilhando, vez ou outra, daquela “felicidade clandestina”.

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Carlos Ruiz Zafón e a arte de contar histórias

O escritor espanhol mais vendido deste século foi, talvez, o que melhor descreveu o amor pelos livros e o desafio que representa esse ofício de se debruçar sobre palavras para criar histórias de ficção ou não-ficção. Antes de se tornar escritor, aliás, ele fez carreira em Publicidade, abandonando esta profissão aos 28 anos para se dedicar ao seu sonho.

Além de conflitos incrivelmente emaranhados, a saga O Cemitério dos Livros Esquecidos, cujas obras podem ser lidas de forma independente, tem como protagonistas ou coadjuvantes escritores, que descrevem, em várias passagens, o poder das histórias e o romântico, porém penoso, trabalho para criá-las.

Em O Jogo do Anjo, um dos títulos da série, Carlos Ruiz Zafón ensina:

1. “O que quero é que encontre um modo inteligente e sedutor de responder às perguntas que todos fazemos e que o faça a partir de sua própria leitura da alma humana, pondo sua arte e seu ofício em prática. Quero que me traga uma narrativa que desperte a alma humana.”

2. “[as fábulas] Ensinam que os seres humanos aprendem e absorvem ideias e conceitos através de narrativas, de histórias, e não de lições magistrais ou discursos teóricos. Esse mesmo ensinamento é transmitido por qualquer texto religioso. Todos eles são relatos de personagens que enfrentam a vida e superam obstáculos, figuras que embarcam em uma viagem de enriquecimento espiritual através de peripécias e revelações. Todos os livros sagrados são, antes de qualquer coisa, grandes histórias cujas tramas abordam os aspectos básicos da natureza humana, situando-os em um contexto moral e no limite de determinados dogmas sobrenaturais.”

3. “A inspiração virá quando fincar os cotovelos na mesa, o traseiro na cadeira e começar a suar. Escolha um tema, uma ideia, e esprema o cérebro até doer. É isso que se chama inspiração.”

4. “A literatura, pelo menos, a boa, é uma ciência com sangue de arte. Como a arquitetura ou a música. (…) A única coisa que brota sem mais nem menos é pelo e verruga.”

5. “Um escritor nunca esquece a primeira vez que aceita algumas moedas ou um elogio em troca de uma história. Nunca esquece a primeira vez que sente o doce veneno da vaidade no sangue e começa a acreditar que, se conseguir disfarçar sua falta de talento, o sonho da literatura será capaz de lhe garantir um teto, um prato quente no fim do dia e aquilo que mais deseja: seu nome impresso em um miserável pedaço de papel que certamente vai ver mais do que ele. Um escritor está condenado a recordar esse momento, porque, a partir daí, ele está perdido e sua alma já tem um preço.”

6. “Os livros tinham alma, a alma de quem os tinha escrito e de quem os tinha lido e sonhado com eles.”

Quem disse que não há verdades na ficção?

*Artigo originalmente publicado no LinkedIn e no blog Mais Um Café?.

Uma Vida sem Waze

BuzzFeed / Manuel Dietrich Photography

 

Se tinha um propósito na vida, como vários coachings, mentores, psicólogos e especialistas na vida alheia defendiam, o de Laura era esse: nada de monotonia, só felicidade extrema, a qualquer custo. Ela trabalhava duro para isso – malhação pesada, além de visitas semanais à psicóloga, massagista, cabeleireiro, manicure e pedicure. Casou-se, separou-se, adotou um gato, arranjou outro(s) namorado(s), viajou o mundo e conquistou uma vaga super disputada em uma multinacional. Até o dia em que o rótulo de bem-sucedida, junto com todos os outros, deixou de ser suficiente. Nenhum lhe cabia mais. Aquele vazio, mesmo rebocado, fazia um barulho incômodo – como o eco dos pingos do chuveiro na madrugada vazia.

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