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Todos os dias pinceladas rosadas anunciam o embate silencioso que ocorre no breu e que passa despercebido pelos mais distraídos em todos os cantos do mundo. Com força, a escuridão cede lugar ao brilho de majestosos traços laranjas, que se tornam, pouco a pouco, cada vez mais vivos. São raios que alcançam fissuras, cobrem fendas, aquecem feridas, abrandam tristezas. Como a de Carolina, cuja melancolia da partida de Barcelona ganhou com cada caloroso raio de sol, em meio ao porto da cidade, o agridoce sabor da esperança.

Essa escritora paulistana manipula remédios não muito convencionais para espantar a tristeza. Encontra os ingredientes e define as fórmulas muitas vezes sozinha, confiando em um singular elemento: o inesperado. 

Seu primeiro remédio foi descoberto em 2010, quando seu pai teve um enfarte fulminante que afetou dois terços do seu coração. Foram 45 dias de internação — dele e da família. Em um deles, quando a porta do elevador inesperadamente se abriu na Pediatria, Carolina viu uma ala colorida e cheia de brinquedos, onde a dúvida e o medo ainda imperavam. “Imagina o que é para um pai ter um filho que está internado e está ali na expectativa, sem saber se pode perdê-lo ou não. Ali virou uma chave na minha cabeça.”

Depois que o pai recebeu alta, ela encontrou o ingrediente para o seu remédio.  “A arte! Eu precisava devolver alguma coisa para o mundo com arte. Eu preciso fazer alguém feliz. A criança pode estar hospitalizada e sofrendo, mas, por um momento, eu posso arrancar um sorriso e amenizar o que ela está passando”.  

Para estruturar a fórmula, ela buscou ajuda da Associação Viva e Deixe Viver, uma OSCIP que capacita voluntários para se tornarem contadores de histórias para crianças em hospitais. “Ali eu encontrei uma forma de me superar, porque estava interagindo em um hospital, um local completamente inadmissível para mim; estava mexendo com crianças que, assim, tinham acesso à arte e à alegria; e, ao mesmo tempo, estava fazendo algo que eu gosto pra caramba, que é contar histórias”.  

O curso de um ano e as visitas ao hospital despertaram novas reflexões e uma sensação de inquietude: havia algo faltando. Foi o inesperado quem, de novo, apontou um caminho. No balcão de um sebo, um convite para um curso de clown.

Assim como o palhaço, o clown também usa um nariz vermelho e roupas espalhafatosas. Só que ele é mais do que um personagem. Não basta vestir uma roupa, contar uma piada ou improvisar uma cena. O clown demanda um processo árduo de autoconhecimento, que pressupõe uma desconstrução. Não serve para exorcizar, mas para enaltercer demônios. Aprende-se, logo nas primeiras, aulas, a dura tarefa de eliminar julgamentos, de aceitar o ridículo, a rir de si mesmo, de fazer as pazes com si próprio e, finalmente, de ser mais leve. “Aprende-se que é tão simples fazer alguém rir. É tão simples ser feliz. Tão simples”.

O clown não necessariamente fala; ele se expressa com o corpo, com o rosto e, principalmente, através da trajetória única de cada ser humano. Quando se transforma,  Carolina usa um vestido preto com vários pompons, uma meia-calça com todas as cores do mundo e All Star diferentes. Foi vista pela última vez em uma linha de trem que liga a região central de São Paulo ao Capão Redondo.   

Num fim de semana qualquer, ela invadiu com sua trupe um abrigo, que acolhe filhos de mães viciadas em drogas. Do seu mergulho interior, Carolina não definiu ainda o nome da sua palhacinha, mas levou para aquele lugar esquecido e atormentado o nascer do sol. Cada criança ganhou o seu próprio astro-rei, desenhado com amor e guardado na bolsa.

Aquele sol podia não ser tão perfeito quanto o admirado no porto em Barcelona, mas teve o mesmo efeito curativo. Uma fórmula imbatível para resgatar a alegria da criançada e injetar no coração de Carolina o mais potente medicamento já prescrito: a gratidão pela vida.