Foto BIA DEL PICCHIA
Beatriz Del Picchia (Arquivo Pessoal)

“Mulher não se ajuda. Mulher compete”. Essa crença coletiva, que atravessa gerações, ofusca uma história bem mais forte e verdadeira: as mulheres se apoiam e constroem juntas.

Desde os tempos mais remotos, círculos femininos são formados para compartilhar, mais do que histórias, propósitos em comum. Na Grécia Antiga, por exemplo, elas se reuniam anualmente para fazer um ritual de fertilização da Terra. A arquiteta pós-graduada em Psicologia Analítica Beatriz Del Picchia estudou essas irmandades, que, ao longo da história, ganharam novas composições, tornando-se um espaço de aceitação, acolhimento, experimentação e cura individual e coletiva. “Há relatos, por exemplo, de que as mulheres nos haréns se ajudavam mais do que disputavam qual delas o sultão escolheria – e olha que isso era muito importante em um harém!”

A ideia de estudar círculos de mulheres surgiu de um insight da psicóloga e terapeuta junguiana Cristina Balieiro. As duas se conheceram há cerca de 15 anos, em um grupo de estudos de dança e mitologia. A amizade floresceu a partir de uma longa e interminável conversa (ainda bem!) sobre as histórias que consumiam. “Começamos a conversar sobre os livros da infância, depois passamos para o que estávamos lendo na época e isso continua até hoje. Nós nos estimulamos mutuamente e muitas vezes seguimos juntas para novas aventuras”.  E quantas aventuras!

Círculo das Mulheres – As Novas Irmandades é o terceiro livro da dupla, que já lançou O Feminino e o Sagrado – Mulheres na Jornada do Herói e Mulheres na Jornada do Herói – Pequeno Guia de Viagem. Também comandam juntas um círculo que discute mitologias ligadas às mulheres sempre relacionando com a vida contemporânea.

A primeira experiência de Beatriz com essas irmandades foi, segundo ela, há muito tempo. “Participei de grupos de foco psicológico, mitológico, artístico… e os que misturam tudo. Adorei o ambiente, o clima, a troca, embora tenha ido a alguns melhores e outros, claro, piores. Mas os bons se sobressaem e compensam os outros”.

Ela explica que esses espaços abertos à fala não são secretos, não tem hierarquia, muito menos discriminação. Ao priorizar a sinceridade e a irmandade, fomenta-se vínculos e propósitos, além de despertar a consciência e até a cura para paradigmas que fragmentam e fazem feridas em todos. “É uma amostra de como todos – gêneros, raças, crenças religiosas, orientações sexuais etc. – podem conviver pacificamente e crescer como humanidade. É uma experiencia, feita em círculo, que a participante pode levar para casa e para a sociedade em geral”.

A vivência da dupla em círculos foi o estopim para uma busca mais profunda, que levou dois anos e contou com pesquisa bibliográfica, entrevistas, reflexões, escrita e reescrita. Foram, segundo Beatriz, anos bem intensos e cheios de aventuras intelectuais e vivenciais. “Procuramos condutoras de círculos consistentes e experientes, sobre temas variados para abranger o máximo de assuntos com que as mulheres estão lidando atualmente”.

O resultado é um livro rico, com um histórico dessa prática e a experiência de 13 mulheres, que lideram espaços com foco psicológico, mitológico, reivindicativo-social, espiritual, artístico, mulheres negras e lésbicas. “Por acaso, mas não por coincidência, 13 é um número ligado a ciclos femininos e a anciãs mitológicas”, explica.  A imersão nessas narrativas também foi surpreendente para Beatriz. “Elas começaram a lidar com mulheres dos jeitos mais variados, enfrentaram perrengues e tempestades de tudo que é tipo, fizeram formações e práticas bem diferentes, e chegaram mais ou menos no mesmo lugar: um belo lugar de mudança e acolhimento do feminino”.

Para Beatriz, ainda existe muita mulher “reproduzindo a disputa feminina, que só faz bem para o pior do patriarcado”. A boa notícia, segundo ela, é que isso está mudando. “Estamos cada vez mais conscientes de que nos ver como irmãs é bom para todo mundo. A própria situação de maior dificuldade social das mulheres na sociedade –  menos oportunidades, menos garantias,  mais mal pagas, mais ameaçadas etc. – estimula esse apoio mútuo. Aquela frase “juntas somos mais fortes” não é só slogan, é muito verdadeira”.

 

PS: O círculo de Beatriz e Cristina está aberto a qualquer mulher, geralmente no segundo sábado, das 15 às 17h30, na Livraria Millenium, em São Paulo. É cobrada somente uma taxa de R$ 8 para manutenção do espaço. Para acompanhar a agenda, visite o  site Feminino Sagrado ou as redes sociais da dupla.