No Ponto Chic, em São Paulo (SP).

É assim que ela está hoje. Encostada em um canto. Já registrou números, dinheiro, histórias. Com o tempo, perdeu seu vigor e até importância. Passou a registrar o tempo e as mudanças que ele inevitavelmente traz.

Quando era pequena, eu tinha que segurar as mãozinhas sempre que ia ao supermercado. Ficava hipnotizada pelas caixas registradoras, mais modernas que as da foto, obsoletas para os dias de hoje. Quanto esforço repetitivo, quantos números, quanto dinheiro, quantas histórias. Como a minha, inocente, que só queria sentar naquela cadeira, escutar o canto das teclas, arrancar a notinha e entregar o troco.

Na casa do meu avô, tinha uma bem menor: uma calculadora que registrava as equações em um rolo de papel. Era uma perdição! Ali eu tinha liberdade para criar histórias, fazer contas aleatórias, desperdiçar papel. De vez em quando eu arriscava saltos maiores. Sentava-me em uma das máquinas de escrever dele e tentava datilografar algumas linhas. Não tinha a habilidade dele, que passou madrugadas afinando aquele instrumento, metralhando com palavras difíceis folhas e mais folhas de papel.

Hoje sou eu que me sento em um dos cantos da casa, em um dos cantos que ele usava, para compor em uma máquina bem mais prática melodias silenciosas. Quiçá sob o olhar dele…Pensando bem, aposentada talvez aquela máquina não esteja. Do canto, ela tem uma posição privilegiada para registrar e despertar o que realmente importa: memórias