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Doce Viagem

O melhor da vida na nuvem

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Blog Mais um Café?

Desconfinamento

Era uma tarde de sol com poucas nuvens pintadas no céu azul. Sentia-me abraçada por uma manta leve, que formava em meu corpo uma capa protetora contra o vento hostil, típico dessa época do ano. Repousava sobre o meu colo um livro, cuja história parecia se entrelaçar ao gracioso movimento da natureza ao meu redor. “Em momentos como estes”, disse o protagonista, “vemos a que deplorável espécie de brutos pertencemos.”

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Guerra

Era o século mais pacífico

até este momento

até um vírus expor a doença

que já existia

já provocava dores

já provocava separações

já se mostrava desumana

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Há um ano

Há um ano meus planos se desfizeram. Há um ano a rotina mudou. Há um ano não há mais abraços. Há um ano os encontros distantes se tornaram próximos. Há um ano não viajo, só navego. Há um ano olho nos olhos do medo, da dor, do ódio, do perdão, do amor. Há um ano aprendi o que é fé. Há um ano aprendi o que é desapego. Há um ano escrevo por ofício, por prazer e por urgência. Há um ano estudar se tornou meu oxigênio; ler, meu momento mindfulness. Há um ano aprendi a contemplar, a explorar novas formas de criar, a buscar meios de melhor conviver. Há um ano transito entre a revolta e a resignação. Há um ano reflito sobre o peso do individual no coletivo. Há um ano me despeço de pedaços que já não fazem mais parte de mim. Há um ano aprendi que não sei viver sem sonhar. Há um ano entendi que esses sonhos se reformam e se renovam – às vezes, diariamente. Há um ano meu horizonte se encurtou, mas minha consciência se expandiu. Há um ano aprendi como é fácil colecionar frustrações. Há um ano entendi como me faz bem agradecer. Há um ano mudei como me alimento de comida, notícias, pensamentos, emoções. Há um ano (re)descobri novas e velhas pessoas. Há um ano tento parar de pensar sobre o presente. Há um ano tento entender como chegamos aqui. Há um ano eu seria incapaz de imaginar o que estamos vivendo. Há um ano eu não teria criatividade para conceber este futuro presente. Há um ano eu não seria capaz de imaginar o tanto que essa experiência me transformou – e continua me transformando. Há um ano eu era outra pessoa. Há um ano eu espero por um recomeço. Há um ano eu recomeço todos os dias.

*A primeira contaminação de coronavírus no Brasil foi identificada em fevereiro de 2020. A primeira morte ocorreu no mês seguinte. Também em março o Governo do Estado de São Paulo decretou, pela primeira vez, quarentena no estado. Muitos de nós nunca saímos dela.

O Leitor Ideal

Alberto Manguel (Foto: Sapo.pt)

Eu imagino que o perfume dele muda junto com as leituras: naftalina, suor, sangue, velas. Tem hábitos variados e incomuns: desperta diariamente pronto para atravessar o Inferno, o Purgatório e o Paraíso, ciclo que repete não para pagar pecados, nem para expurgar culpas, mas por pura devoção.

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Um apelo ao Papai Noel

Confesso: nunca morri de amores pelo Papai Noel. Nunca cedi a seus sorrisos, presentes, doces e pirulitos – ainda que tenha aceitado boa parte deles. Talvez seja uma fobia a gente grande usando fantasia fora do carnaval, pois nunca me afeiçoei a palhaços. Passei uma festa no colo do meu avô, só para não ter que interagir com aquele homem colorido e maquiado. Qualquer tentativa de aproximação, era repudiada com gritos histéricos e lágrimas saltitantes. Tampouco me orgulho de ter contado para uma amiguinha que o Polo Norte não era tão longe assim – o velho barrigudo morava no quarto ao lado do dela. “Ela é tão inteligente”, tentei justificar, “merecia saber a verdade”.

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A Mulher das Cavernas do Século XXI

– Você usa o Trello? –  perguntou-me o cliente.

– Não.

– Google Agenda?

– Não, uso agenda de papel mesmo.

– E como as pessoas sabem se você está disponível para reuniões? – insistiu, em um misto de curiosidade e incômodo.

– Elas me perguntam.

– Toda vez?

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A Vida, segundo Isabel

Eu já conhecia Isabel há algum tempo, mas só me conectei com ela quando a vi falar sobre suas dores e alegrias, sem lamentos ou excessos. Vi-me diante de uma mulher sóbria, com voz firme e pausada, sem vergonha de contar tudo que viveu.

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Crônicas de família

A senhorinha encostou-se no muro baixo da casa, como se estivesse colando a barriga em um balcão de bar. Em vez de bebidas, frituras e guloseimas, ofereceu histórias sobre os outros habitantes da casa – 3
gatos e 1 cachorro. “Quem briga são os humanos. Esses aí convivem muito bem”, avisou, espatifando sem dó qualquer crença baseada em Tom e Jerry.

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