Com o corpo pesado do exercício, rendo-me à posição final da prática de yoga, a mais simples e a difícil, pois exige total entrega e o reconhecimento da vulnerabilidade em mim. Respiro uma, duas, três vezes. O chão duro, coberto por um leve tapete, me abriga como um abraço saudoso.

Com os olhos ainda abertos, vejo que o varal torna-se, aos poucos, uma partitura. Os pregadores são as notas musicais de uma melodia que não posso ouvir, só sentir. “Both Sides Now”, de Joni Mitchell, se forma dentro de mim, recordando-me da dualidade da vida, do desconforto de me sentir lançada de lá para cá, da lacuna que dá outra forma à impermanência.

No YouTube, um homem comenta em um vídeo de uma apresentação de Mitchell em 2000: “Meu gosto musical mudou depois que fiquei cego seis anos atrás; esta é agora uma das minhas músicas favoritas e esta é definitivamente a melhor versão! Você não sente falta de algo tão simples quanto uma nuvem até não poder mais vê-las.”

A escuridão tem esse papel: lembrar-nos como somos tolos. Nós realmente não sabemos nada sobre a vida.

Esse post foi originalmente publicado no blog Mais Um Café?