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Blog Mais um Café?

A queda do bunker

Pedro sabia que era um cara de sorte, mas não imaginava quanto. Quando o isolamento social começou, ele montou um verdadeiro bunker em casa: congelados no freezer, cadeira gamer, tela extra e cerveja, cerveja e mais cerveja. Virou um maratonista: de trabalho; de séries e filmes na Netflix; de lives e cursos dos mais variados. É preciso colocar nessa lista as conferências, não só de trabalho, mas com diferentes grupos, de familiares e amigos, para comentar tudo o que acontecia. Uma atrás da outra. Sem parar.

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O banqueiro

Era assim que João era conhecido no bairro onde morava. Trabalhou a vida inteira em um banco. Sua dedicação era elogiada pelos chefes: era o primeiro a chegar e o último a sair. Mal almoçava e férias, bem, essas ele fingia que desfrutava, porque continuava a frequentar o banco, só para desafogar os colegas e atender clientes preferenciais.

Nunca se casou. Com os vizinhos, por falta de tempo, era monossilábico. Não tinha amigos e até a família ele tratava como os clientes – com simpatia, na mesa de trabalho, tentando resolver mais de um problema ao mesmo tempo. Não sabia agir de outra forma. Não sabia viver de outra forma. Ao trabalho se resumia a sua vida; o banco era o seu sobrenome. Até o dia em que sua ausência foi sentida. Onde estava João?

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Exilados e estrangeiros

Poster do filme Medianeras

Luiza só queria comprar um remédio para dor de cabeça quando foi lembrada da sua condição. Ela não tinha percebido os olhares lançados em sua direção enquanto esperava na fila e falava com a mãe, em Português, por telefone. “Volte para o seu país”, disse um senhor ao esbarrar com certa violência nela. Todo mundo viu, ninguém se manifestou a seu favor. Foi, então, que ela se deu conta: após deixar o Brasil e conquistar outra cidadania, ela virou uma estrangeira – no país onde nasceu, no país que a acolheu.

José conhecia bem esse sentimento. Como muitos, ele deixou o sertão nordestino para sobreviver em São Paulo. Morava na Zona Leste e trabalhava como guarda noturno em um condomínio da Zona Sul. Pouco convivia com amigos e familiares, mal conhecia os colegas do edifício onde passava seis noites da sua semana, era somente uma sombra para os moradores daquele prédio.

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A escrita e a culinária de cada dia

Entre a escrivaninha e o fogão há mais semelhanças do que se pode imaginar. O processo para criar um texto e fazer o almoço segue, na minha opinião, a mesma fórmula: é uma grande jornada entre o mundo interior e exterior, temperada de aventuras e emoções.

Há de se começar sempre com um plano. Um bom texto surge de um roteiro bem definido – com objetivos e elementos para prender a atenção volúvel do leitor e lhe arrancar suspiros, likes e resenhas positivas. O sucesso do almoço também depende de um cardápio estruturado, que dará o tom de todo o preparo – da organização aos ingredientes que não podem faltar para agradar aos mais diferentes paladares e estômagos.

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Só uma palavra ou um estilo de vida?

Impermanência, palavra mais bonita, que me acalma e me anima a seguir com a vida; palavra mais assustadora, que me faz sentir oca, desesperada e sofredora.

Impermanência, lista provavelmente infinita: é dedo na ferida, lágrimas caídas, emoções vividas, imaginação viva.

Impermanência, que varre tudo: sentimento, experiência, conflito, relação, briga, birra.

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A moça do Kindle

Ela o carregava dentro de uma bolsa pequena de couro marrom. Uma biblioteca compacta, com livros em Português, Espanhol e Inglês, dos mais diferentes gêneros, apropriados a diversas situações, propósitos e humores.

Era a ele que ela recorria no metrô ou na sala de espera do dentista; entre reuniões ou nas fugas repentinas para um almoço solitário, só para terminar aquele capítulo que lhe esmagava o peito.

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Nublado

fui sendo engolida
sem colocar medida
por uma força maligna
discreta e inimiga

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Recado ao cansaço

Sinto-me em um amasso
não em um abraço
sufocada por um laço
que não me deixa dar um passo

Tu me roubas a vida
que fica bem menos colorida
sinto-me desprotegida
e distante da terra prometida

Meu antídoto contra ti é o sol
um verdadeiro farol
que me redireciona na estrada da vida
e me faz fortalecida

De ti sigo sem me despedir
mas já não preciso te agredir
minha fé é o elixir
pois minha alma descansa no porvir

**Poesia originalmente publicada no blog Mais um Café. Confira outras poesias, crônicas e contos clicando aqui.

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