kalu

Todo mundo já vestiu a capa da invisibilidade, pelo menos, uma vez na vida. É aquela que você usa para esconder do mundo suas inseguranças, quaisquer que elas sejam. Kalu despiu-se da sua depois de 30 anos. “Quase a vida toda, né?” 

O que a incomodava era uma pinta, de nascença, na testa. “Eu sempre odiei aparecer e com a pinta era impossível. As pessoas olhavam, as crianças apontavam e muita gente ficava comentando qual tinha sido o desejo da minha mãe para que eu nascesse com “aquilo” e até mesmo que o formato se parecia com uma barata ou que eu era um dálmata. Lembro-me de detestar os comentários e os olhares”.

Kalu aprendeu a se camuflar aos nove anos, quando um cabeleireiro sugeriu que ela usasse franja. Esse corte fez parte da sua vida por 31 anos. “No começo, eu era muito dependente: ficava sentada sempre onde não havia vento e, quando vinha uma corrente, eu rapidamente colocava a mão sobre a franja pra não revelar meu segredo”.

A medida que foi amadurecendo, Kalu começou a se despir da sua capa da invisibilidade. “Aos 18 anos, fui ver um cirurgião para verificar se poderia tirá-la. Ele explicou que o processo teria que ser feito em duas cirurgias. Achei melhor não fazer, sou muito natureba pra isso e fujo de hospital, medicamentos etc. Percebi que a pinta não era mais um incômodo, mas que eu ainda não tinha coragem de mostrá-la. Segui, então, com a franja”.

Ela tirou, finalmente, a moldura do rosto no ano passado. “E sabe qual foi a minha surpresa? Quase ninguém sequer repara na minha pinta e não ouvi até agora nenhum comentário. E já se passaram meses… Isso tem me feito pensar muito que quando estamos com algo resolvido dentro, o externo responde e reflete o interno. Estar em paz com a minha pinta faz com que as pessoas não comentem e muitas nem percebem”.

Quando olha para trás, Kalu não fala em arrependimento nem se recrimina. “Quando penso em aceitar a mim mesma, não penso em uma luta, mas em uma dança. A gente tem uma intenção, mas respeita os movimentos da vida e dança com eles”.

Ela divide até os primeiros passos para que qualquer um possa criar a sua própria coreografia. “Uma boa dica pra começar a se aceitar é se conhecer. Buscar formas de mergulhar em si mesmo e enxergar quem você é realmente, quais são as suas qualidades de essência e que te fazem brilhar, o que você faz e que torna o mundo melhor. Outra dica pra fazer uma “boa dança” é buscar seu equilíbrio através de práticas que te energizem e que permitam manter o eixo. Assim, você segue se conhecendo e se encantando por você mesmo, em equilíbrio, sem tantas oscilações e instabilidades. Por fim, sugiro um pouco de silêncio e práticas para a escuta interna, para ouvir a voz do seu coração e não os barulhos externos ou a opinião alheia, o que a sociedade diz ou manda”.

Esse foi o caminho dela. “Aceitar-me dentro dessa perspectiva e assumir minha pinta, meu corpo, as coisas que acredito ou a minha Missão na Terra ficou muito mais fácil. Uma linda e tranquila dança”.