Manuscrito, ou códice, de Leonardo da Vinci em exposição em São Paulo

Eu sempre fui fascinada por manuscritos. Sinto neles o convite para mergulhar no mundo do artista ou a prova de que a magia existe e é produzida diretamente no coração e na imaginação do ser humano. Não dá esquecer o esforço e a persistência – afinal, muitas ideias (de livros a engenhocas) nascem de rabiscos feitos em um mísero pedaço de papel. Nem tudo vem à público, nem tudo tem um intuito comercial. É somente uma forma de desenvolver um raciocínio; de perpetuar um sentimento ou uma memória; de organizar as emoções, os fatos, as dívidas, os sonhos.

Leonardo da Vinci fez isso. Registrou observações, experimentações, desenhos e até orçamentos em mais de 7.200 páginas. Algumas dessas anotações são como essas da foto –míseros quadradinhos preenchidos com uma escrita miúda, cadenciada e ordenada. Tão diferente dos meus garranchos…

Sempre que começo um caderno, uma agenda ou um diário, prometo melhorar. Sinto vontade de resgatar a delicadeza da menina que escrevia cartas, mas a jornalista filha de médicos sempre ganha a disputa. As letras saem apressadas e inacabadas. Parecem querer saltar das páginas, ignorando margens e linhas, comendo sílabas, criando hiperlinks no papel mesmo…

Eu sei, eu sei. Cadernos, agendas e diários soam obsoletos nesse mundo tech, mas continuo achando mais eficientes (me julguem!) e mais prazerosos. Ao ver os códices de da Vinci, obras de arte valiosíssimas, protegidas do contato humano e disputadas por organizações do mundo inteiro, me perco divagando sobre essas ferramentas rudimentares.

Um pedaço de papel com a letra do meu avô, o caderno de receita da minha bisavó, as fotos de tantos parentes e ancestrais que nem conheço e que não carregam a genialidade de Leonardo, mas tem um valor sentimento tão ou mais importante. Afinal, cada pedacinho desse quebra-cabeça rústico e analógico denota a memória de uma geração; ecoa vozes; expressa o meu DNA; compõe a fusão do tempo e do espaço; incorpora um legado; inscreve um propósito; e versa a eternidade, feita visível, aqui e agora.