Foto: Julião Armento/ Museu Coleção Berardo – Portugal

Eu conheci um homem que deixou tudo para trás para viver o sonho de hastear sua bandeira nos 4 cantos do mundo. Em um deles, porém, sua âncora caiu e dali ele nunca mais saiu. Vive há sete anos a aventura de criar raízes em um lugar novo, em uma cultura nova, já partes de si.

Eu conheci uma mulher que se refugiou do outro lado do oceano há 40 anos. Fugiu de um relacionamento tóxico e não encontrou forma de se libertar a não ser deixar tudo e todos. Em outras terras, em outro idioma, reconstruiu-se. Hoje volta ao seu país com a alma cheia de saudade e o olhar, de curiosidade. Faz planos de voltar, porque sabe que nunca conseguiu chamar outro lugar de lar.

Eu conheci um homem que derrama uma caixa de vinho na garrafa de refrigerante. Concentra-se na operação, deixando escapar um sorriso de vitória no canto da boca. Enquanto tenta enganar os outros, engana a si mesmo.

Eu conheci uma mulher que teve seu futuro revelado por uma vidente. Seu relacionamento estava com os dias contados. Um homem de uma cidade decorada com rosas teria as qualidades que ela merecia, recebendo-a em sua casa, no alto da montanha, com vista para o mar. A mulher suspirou, mas não se aquietou. Continuou a viver, arriscou-se em outro relacionamento e, ao se mudar de cidade com o novo namorado, quatro anos depois, deparou-se com o tal descrito pela vidente. Na cidade de rosas, ela vive; do topo da montanha, ela agradece.

Eu conheci uma mulher a quem não resta dúvidas de que lhe resta menos de uma década de vida. Seu fôlego, diz, está chegando ao fim. Com o destino traçado pela intuição, ela não perde tempo: trabalha, viaja, pula carnaval, ri alto, ama intensamente. Segue com a certeza não só de suas limitações, mas também de que, quando chegar o Juízo Final, ela responderá: “eu vivi”.

Eu conheci…