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Doce Viagem

O melhor da vida na nuvem

O banqueiro

Era assim que João era conhecido no bairro onde morava. Trabalhou a vida inteira em um banco. Sua dedicação era elogiada pelos chefes: era o primeiro a chegar e o último a sair. Mal almoçava e férias, bem, essas ele fingia que desfrutava, porque continuava a frequentar o banco, só para desafogar os colegas e atender clientes preferenciais.

Nunca se casou. Com os vizinhos, por falta de tempo, era monossilábico. Não tinha amigos e até a família ele tratava como os clientes – com simpatia, na mesa de trabalho, tentando resolver mais de um problema ao mesmo tempo. Não sabia agir de outra forma. Não sabia viver de outra forma. Ao trabalho se resumia a sua vida; o banco era o seu sobrenome. Até o dia em que sua ausência foi sentida. Onde estava João?

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Tela em branco

Os amigos estranharam a aparência de Heloísa, que desembarcara do México usando nada além de calça jeans, camiseta branca e tênis. Estava sem maquiagem, não exibia aquele sorriso malicioso, nem destilava piadas e ironias entre frases tiradas dos diários da sua artista favorita.


Heloísa era conhecida por seu fascínio por Frida Kahlo e gostava de colorir seu mundo como a pintora mexicana. Seus cabelos só não eram mais longos que os colares que lhe caíam sobre o colo e alongavam sua silhueta. Flores sempre adornavam seu rosto ou roupa e, mesmo no calor tropical, não dispensava o uso de botas pesadas.


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Exilados e estrangeiros

Poster do filme Medianeras

Luiza só queria comprar um remédio para dor de cabeça quando foi lembrada da sua condição. Ela não tinha percebido os olhares lançados em sua direção enquanto esperava na fila e falava com a mãe, em Português, por telefone. “Volte para o seu país”, disse um senhor ao esbarrar com certa violência nela. Todo mundo viu, ninguém se manifestou a seu favor. Foi, então, que ela se deu conta: após deixar o Brasil e conquistar outra cidadania, ela virou uma estrangeira – no país onde nasceu, no país que a acolheu.

José conhecia bem esse sentimento. Como muitos, ele deixou o sertão nordestino para sobreviver em São Paulo. Morava na Zona Leste e trabalhava como guarda noturno em um condomínio da Zona Sul. Pouco convivia com amigos e familiares, mal conhecia os colegas do edifício onde passava seis noites da sua semana, era somente uma sombra para os moradores daquele prédio.

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A escrita e a culinária de cada dia

Entre a escrivaninha e o fogão há mais semelhanças do que se pode imaginar. O processo para criar um texto e fazer o almoço segue, na minha opinião, a mesma fórmula: é uma grande jornada entre o mundo interior e exterior, temperada de aventuras e emoções.

Há de se começar sempre com um plano. Um bom texto surge de um roteiro bem definido – com objetivos e elementos para prender a atenção volúvel do leitor e lhe arrancar suspiros, likes e resenhas positivas. O sucesso do almoço também depende de um cardápio estruturado, que dará o tom de todo o preparo – da organização aos ingredientes que não podem faltar para agradar aos mais diferentes paladares e estômagos.

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Só uma palavra ou um estilo de vida?

Impermanência, palavra mais bonita, que me acalma e me anima a seguir com a vida; palavra mais assustadora, que me faz sentir oca, desesperada e sofredora.

Impermanência, lista provavelmente infinita: é dedo na ferida, lágrimas caídas, emoções vividas, imaginação viva.

Impermanência, que varre tudo: sentimento, experiência, conflito, relação, briga, birra.

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A moça do Kindle

Ela o carregava dentro de uma bolsa pequena de couro marrom. Uma biblioteca compacta, com livros em Português, Espanhol e Inglês, dos mais diferentes gêneros, apropriados a diversas situações, propósitos e humores.

Era a ele que ela recorria no metrô ou na sala de espera do dentista; entre reuniões ou nas fugas repentinas para um almoço solitário, só para terminar aquele capítulo que lhe esmagava o peito.

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Nublado

fui sendo engolida
sem colocar medida
por uma força maligna
discreta e inimiga

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A pianista mais sábia do mundo

Ela tem página na Wikipédia e teve sua história retratada por jornais nos quatro cantos do mundo. Colette nasceu às vésperas da I Guerra Mundial e ainda carrega em si o espírito de La Belle Époque.

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