Minha avó nasceu pouco mais de 40 dias depois dele, cujos descendentes cismam em reduzir a História às páginas amareladas dos livros. E é neles que encontramos suas raízes, em uma monarquia que se recusava a reformular o sistema eleitoral. Em 1887, a dentista Isabel de Souza Mattos evocou uma lei e mostrou seu título científico para ter um registro, mas de nada adiantou.
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O acupunturista me perguntou se eu penso demais. Oras, não é isso que a gente faz? Ok, eu também penso enquanto durmo: nos problemas ou no que considero problemas. Às vezes, questiono o sonho, como se estivesse diante de um roteiro nada plausível. “Ei, mas o que essa pessoa está fazendo aí?”. Para quem lanço essa pergunta? Seria para mim mesmo? Seria para os algoritmos controladores de sonhos? Lembrei-me de um médico, que não era da cabeça, ou era?, que me perguntou se eu era muito estressada. Oi? “Alguém já respondeu que não, doutor?” Fui mais fundo, mais fundo…
Continuar lendo “Reflexões sob o poder de uma agulha”Entre os livros de não-ficção mais vendidos nos últimos meses de 2021, segundo o PublishNews, está Meditações, do imperador romano Marco Aurélio, uma das obras mais conhecidas da filosofia estoica. Reza a lenda que seu autor, famoso por ter humanizado o poder, apesar das guerras sangrentas que liderou, o concebeu como um conjunto de reflexões a serem entregues ao filho Cômodo após a sua morte.
Continuar lendo “Reflexões de um passado presente”
Chego ao fim de mais um caderno, por cujas pautas ensaiei quem fui, quem sou, quem sonho ser e quem, talvez, nunca serei. Afinal, não decorei a coreografia e, por vezes, me perdi em um passo diferente, seguindo um compasso sussurrado, quem sabe, pelo vento. Aprendi com Clarice que nada às vezes faz sentido, nem precisa fazer eternamente – basta um instante, um instante de um segundo, um minuto, uma hora, um dia, uma semana, um mês, um ano, uma vida. Sem sapatilha, suja de tinta, sigo a melodia silenciosa, ou talvez seja misteriosa, porque parece que ninguém mais a escuta, só meus pés a conhecem, só minha mão direita é capaz de traduzi-la. Uma confusão única, obra de uma existência.
Esse post foi originalmente publicado no blog Mais Um Café?

Foi Caio Fernando Abreu quem melhor expressou o que eu sentia sobre Clarice Lispector. “Ela é demais estranha”, escreveu à Hilda Hist. “Ela é exatamente como seus livros: transmite uma sensação estranha, de uma sabedoria e de uma amargura impressionantes. (…) Tem olhos hipnóticos quase diabólicos.”
É claro que eu não cheguei a conhecê-la pessoalmente e, talvez, por isso nunca tenha tido “febre e taquicardia” como o escritor gaúcho. Só que ela também sempre causou em mim uma perturbação com seus textos, suas analogias profundas, suas personagens sofridas, suas frases enigmáticas e seus desabafos literais. Eu nunca consegui dizer “gostei”, mesmo compartilhando, vez ou outra, daquela “felicidade clandestina”.
Continuar lendo “Vamos conversar sobre Clarice Lispector?”




