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Doce Caminho

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Vidas em minutos

Da janela, um presente mal captado pela lente do celular. O ipê roxo segue o seu ciclo de vida e morte. Já não está tão cheio, mas ainda tira o fôlego. Resplandece nos dias de sol, de chuva, de nuvens carregadas. Cumpre sem papel, sem desculpa, com propósito, de propósito.

Do alto é possível ver a quantidade de passarinhos que o visita. Diferentes espécies. Entre elas, um grupo de periquitos. Namoram a flor antes de fazer chover pétalas, que cobrem o telhado da casa, o quintal, a calçada formando um tapete delicado. Brincam de galho em galho. Quando o momento chega, um momento tão deles, saem juntos para um novo destino. Parecem guinchar de alegria, como crianças em um parquinho, partindo para um novo brinquedo.

Há muitos detalhes nesse quadro emoldurado pela minha janela. Uma fuga da realidade apressada e barulhenta. Uma fuga da ilusão. Um encontro com a verdadeira vida. Muitas vidas em poucos minutos de observação.

Poeta II

No supermercado, enquanto cheirava as mangas, Ana encontrou aquele que parecia ler sua alma nos livros e posts que escrevia e publicava.

Aproximou-se do poeta, perdido entre peras e melões. Ela nem esperou que ele se decidisse. Disparou a falar com o dedo à altura do seu discreto nariz:

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Poeta I

Todos os dias ao acordar Ana corria para a internet. Não se importava com as notícias, não lia o horóscopo, consumia somente poesia. De um único autor.

Naquela manhã, ele tinha postado uma carta de amor. Cada palavra parecia datilografado no coração de Ana:

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O invisível

Ela saiu da reunião e logo trocou o salto pelo tênis. O céu riscado chorava lágrimas finas, tão diferentes daquelas que Juliana segurava dentro de si. Ela respirou fundo e sentiu a bile da rejeição subir à boca. Era só mais um dia de autoestima dilacerada, pensou.

Procurou na bolsa a sombrinha, deixada no conforto do sofá de casa. Enfrentou a rua com a cabeça erguida – não por orgulho, para sobrevivência. A cada passo sua roupa ficava mais encharcada; sua alma, mais pesada. Resistir era exaustivo.

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Quarta-feira de Cinzas

Sou óbvia, sou única

Sou fria, sou úmida

Sou uma praia paradisíaca

Sou areia movediça

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50 anos sem Tarsila

Tarsila do Amaral – Autorretrato

Ninguém mais pode explicar esse autorretrato como a própria autora: “Para mim, um retrato é coisa tranquila, séria, definitiva, como um monumento que a gente contempla sem se cansar.”

E não é?

Tarsila do Amaral morreu em 17 de janeiro há exatos 50 anos. Tornou-se um dos pilares da Semana de 22, mesmo não tendo participado dela. Trouxe para as artes plásticas do Brasil elementos novos, apaixonou-se pelo regionalismo, exercitou vários estilos e se tornou, 47 anos após o seu falecimento, a artista com a tela de maior valor já pago em leilão público no Brasil. E não estou falando do “Abaporu”, mas do quadro “Caipirinha”.

Morreu no hospital, de complicações pós-operatórias, aos 83 anos. Teve uma vida inspiradora – virou fonte de poemas para Mario; de romance, para Menotti; de amores, para Oswald, que lhe roubou o chão ao trocá-la por uma mulher mais jovem.

Foi descrita pelo colunista social José Tavares de Miranda da seguinte maneira: “Tarsila mede 1 metro e 64 centímetros, descalça. Pesa 60 quilos (vestida). Sabe comer muito bem e aprecia a cozinha francesa. Seu prato predileto é “civet de lapin”. Adora os bons vinhos. Em materia de doces é bem brasileira. Gosta demasiadamente da cocada à antiga, isto é, com bastante gema de ovo. Bebe religiosamente seu cafezinho à paulista. Nunca passou sem possuir uma boa adega em sua casa, mas adora a sua batidinha “Pau Brasil”, bebida de sua criação e servida em suas festas. Receita: pinga e gim em partes iguais; limão, açúcar, clara de ovo bem batida e gelo. Adora jaboticaba. O primeiro livro que leu na vida foi o “Tronco do Ipê”, de José de Alencar. Livros de cabeceira: o “Dom Quixote” e a “Odisseia”. Não fuma, é espiritualista, tem horror aos gordos em geral e às borboletas gordas em particular. Adora jardinagem. Prefere pintar de noite”.


Contudo, a melhor sentença, esta sim definitiva, é a do imortal Manuel Bandeira: “Nunca vi boniteza tão brasileira como a da pessoa e dos quadros de Tarsila”.

U m m i n u t o d e c a d a v e z

Foto: @tatirlima (IG)

Às vezes, as palavras ficam entupidas. Não é um simples bloqueio criativo; é uma obstrução provocada pela recusa dos neurônios a fazer certas sinapses. Talvez haja algo que ainda não pode ver a luz do dia; talvez esse algo esteja ainda sendo gestado.

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