Foto: @imoreirasalles, que torna disponível na internet seu acervo de manuscritos e partituras de Chiquinha.
“Eu não entendo a vida sem harmonia”, informou ao marido Francisca Edwiges Neves Gonzaga, a Chiquinha Gonzaga, autora da primeira marchinha de carnaval e a primeira mulher a reger uma orquestra no Brasil. Ela se separou daquele homem com quem foi obrigada a se casar aos 16 anos de idade. Não foi fácil. Teve que deixar os filhos e foi considerada morta pelos pais. Para (sobre)viver, dedicou-se à música que transbordou cedo do seu coração – aos 11, compôs sua primeira canção. Imagine quantas críticas ela ouviu e ainda hoje ouviria.
Ninguém mais pode explicar esse autorretrato como a própria autora: “Para mim, um retrato é coisa tranquila, séria, definitiva, como um monumento que a gente contempla sem se cansar.”
E não é?
Tarsila do Amaral morreu em 17 de janeiro há exatos 50 anos. Tornou-se um dos pilares da Semana de 22, mesmo não tendo participado dela. Trouxe para as artes plásticas do Brasil elementos novos, apaixonou-se pelo regionalismo, exercitou vários estilos e se tornou, 47 anos após o seu falecimento, a artista com a tela de maior valor já pago em leilão público no Brasil. E não estou falando do “Abaporu”, mas do quadro “Caipirinha”.
Morreu no hospital, de complicações pós-operatórias, aos 83 anos. Teve uma vida inspiradora – virou fonte de poemas para Mario; de romance, para Menotti; de amores, para Oswald, que lhe roubou o chão ao trocá-la por uma mulher mais jovem.
Foi descrita pelo colunista social José Tavares de Miranda da seguinte maneira: “Tarsila mede 1 metro e 64 centímetros, descalça. Pesa 60 quilos (vestida). Sabe comer muito bem e aprecia a cozinha francesa. Seu prato predileto é “civet de lapin”. Adora os bons vinhos. Em materia de doces é bem brasileira. Gosta demasiadamente da cocada à antiga, isto é, com bastante gema de ovo. Bebe religiosamente seu cafezinho à paulista. Nunca passou sem possuir uma boa adega em sua casa, mas adora a sua batidinha “Pau Brasil”, bebida de sua criação e servida em suas festas. Receita: pinga e gim em partes iguais; limão, açúcar, clara de ovo bem batida e gelo. Adora jaboticaba. O primeiro livro que leu na vida foi o “Tronco do Ipê”, de José de Alencar. Livros de cabeceira: o “Dom Quixote” e a “Odisseia”. Não fuma, é espiritualista, tem horror aos gordos em geral e às borboletas gordas em particular. Adora jardinagem. Prefere pintar de noite”.
Contudo, a melhor sentença, esta sim definitiva, é a do imortal Manuel Bandeira: “Nunca vi boniteza tão brasileira como a da pessoa e dos quadros de Tarsila”.
“O que aconteceu com Amelia Earhart que segura as estrelas lá no céu?”, perguntou o New Radicals em uma música de 1998, quando o desaparecimento da aviadora se mantinha um mistério.
Ela foi declarada morta em um 5 de janeiro, há 83 anos, após quase 2 anos de buscas. Nascida em 1897 nos EUA, ela decidiu aos 23 que o seu destino era voar. Tornou-se parte de uma geração de mulheres disposta a promover mudanças – no caso dela, não só estéticas, com seus cabelos curtos e calças compridas (foto 1), como também na ambição e nas escolhas.
Às vezes, as palavras ficam entupidas. Não é um simples bloqueio criativo; é uma obstrução provocada pela recusa dos neurônios a fazer certas sinapses. Talvez haja algo que ainda não pode ver a luz do dia; talvez esse algo esteja ainda sendo gestado.
Mal entrei na casa da artista e um agudo ecoou no ambiente. Não era uma nota musical, mas um aviso de que (mais) uma parte de Amália Rodrigues se mantém viva e atende pelo nome de Chico.
A rainha do fado era fã de papagaios. Chico conviveu com ela entre 1991 e 1999, ano de sua morte. Nativa da África Subsaariana, essa espécie cinzenta, quase prata, é considerada a mais inteligente do mundo. Quando abre as asas, revela uma cauda cor de sangue.
Da visita da joaninha bem-vestida Do contágio pela música no rádio Do alívio com a garoa fina Da cura de um abraço apertado Do cheiro de café que inebria Da fruta roubada do pé Do destempero das maritacas Do olhar de quem arde de paixão Dos retratos amarelados de outrora Do propósito inabalável das formigas Da alquimia de temperos na cozinha Da sabedoria silenciosa de uma árvore Da dor na barriga pela gargalhada Do encanto do simples e essencial Da santidade de um beija-flor Da surpresa do inesperado Da lágrima corajosa de uma emoção Da leveza da borboleta se despedindo da vida