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No show de rock, no estádio de futebol, no museu e até nos dias mais lotados da Linha 9 Esmeralda. Em qualquer lugar, em qualquer tribo. Sempre há mais de uma pessoa com o celular em punho registrando um momento, qualquer que seja. 

Eu sou uma dessas pessoas que busca o ângulo perfeito para captar e compartilhar uma “cena”, que nem sempre é tão bela e comovente assim. Por mais que retratos despertem curtidas e até saudade, talvez eles nunca superem o sentimento causado por um momento singular de nossas vidas. Talvez eles nunca traduzam a intensidade e beleza de uma vida bem vivida. E é assim que me sinto quando vejo uma foto da minha bisavó. O coração aperta, os olhos se enchem de lágrimas, mas não há ali, no papel ou na tela, o brilho dela.

Com nome delicado, Conchita viveu 104, 106 anos. Ninguém sabe ao certo. Sempre vaidosa, nunca era vista despenteada ou desarrumada. Era muito feminina. Durante o dia, usava sempre um conjunto de saia de lã e camisa de botão; à noite, uma camisola, mesmo em dias frios. Os bolsos laterais ou até o sutiã escondiam lencinhos de pano bordados ou coloridos, sempre perfumados. Usava meiacinco oitavos e sapato ou tamanco com salto anabela. Era impossível não beijar seu rosto e não sentir o gosto das camadas generosas do creme Nivea anti-rugas (com Q10!, como ela costumava frisar quando pedia que alguém fosse comprar o seu creme preferido” ). Sua rotina de beleza também incluía longas sonecas no meio da tarde.

Com a sua receita de vida, Dona Conchita manteve sempre o mesmo peso. Nunca se privou de pastéis nem de camarão empanado, recusava-se a comer grelhados, escondia doces e biscoitos no armário, tomava uns golinhos de cerveja e contrariava todos os manuais de dietas e da tal vida saudável. Exercícios físicos? Nunca fez! No máximo, leves caminhadas ao shopping ou restaurante mais próximos. Se saía um pouco do peso, reforçava o prato de verduras com um pouco de chuchu. O vegetal mais insípido da face da Terra era o seu segredo para equilibrar gordurinhas, colesterol e companhia.

Nascida em Botucatu no início do século XX, testemunhou guerras e ditaduras, o despertar da democracia, o advento e a defasagem de diversas tecnologias. Dona Conchita superou dores e tragédias pessoais, acolheu inúmeros nascimentos e despediu-se de outros tantos. Foi professora, mas se aposentou cedo, aos 30 anos, por causa de terríveis enxaquecas. Casou-se tarde, para a época, com um lindo italiano de olhos azuis, com quem teve dois filhos.

Manteve-se sempre ativa e com manias singulares, como anotar o elenco das novelas em cadernos. Fez crochê por anos e só deixou o acordeão quando seus braços pediram arrego. Dominou a arte de se fazer de surda quando o assunto não lhe interessava —  ainda assim, eram poucos. Interessava-se pela vida, pelos outros. Sempre leu muito — bula, jornal e livros. Era fã de romances — em especial, das coleções Julia, Sabrina e Paixões picantes. Certamente a senhorinha de mais de noventa anos que leu “Como conquistar um milionário” teria se interessado pelos muitos tons de cinza da trilogia de Christian Grey e Anastasia Steele.

Dizem que um dos segredos da vida é aceitar cada pessoa que cruza nossa vida como um professor, isto é, como se cada indivíduo tivesse a incumbência de nos ensinar uma determinada lição. A de Conchita, para aqueles que a rodearam, foi a de viver apaixonadamente. Sempre. E ela expressou isso até na escolha da sua música favorita: “Fascinação”.

Por mais avançada que a tecnologia esteja, acredito que nenhum registro audiovisual seria capaz de captar o que ela sentia quando escutava a música na voz de Elis. Nenhum seria capaz de armazenar como ela nos fazia sentir. Aquele sorriso que “prende, inebria, entontece”.